top of page

O singular Lovecraft

Mesmo com muita bagagem como leitor de literatura, sempre é possível nos surpreender com algum novo escritor que fugia do conhecimento. Afinal, penso ser impossível que um ser humano possa ler ao menos uma obra de todos os escritores passados e contemporâneos, o que fazemos é o possível, dentro da razoabilidade.


Graças a um de meus sobrinhos, chegou em minhas mãos alguns contos de H. P. Lovecraft (LOVECRAFT, H.P. Contos, volume I. Ed. Martin Claret. São Paulo, 2017), um nome totalmente desconhecido para mim. Conhecendo os comentários preliminares a este escritor, logo imaginei se tratar de algo parecido com Edgar Alan Poe, ou algo semelhante a André Vianco, mas parece que minha impressão estava equivocada, pois Lovecraft acabou revelando-me um estilo de terror que em nada assemelha-se a cenas fantasmagóricas ou de tremendo susto, muito menos a carnificinas detalhadamente narradas em alguns parágrafos. Este escritor apresentou-me um estilo de terror suspenso em narrações otimizadas, muitas vezes sem muito detalhamento, o que nos leva logo a ações objetivas que os personagens realizaram. Este suspense que revela-se, quase sempre no último parágrafo, pareceu-me leve, algo que faz o leitor calmamente ir digerindo um desfecho impactante, mas sem aquele flash de elevação de adrenalina que dura poucos segundos, mas revelando um desfecho que assemelha-se mais a um desenrolar policial “a lá” Sherlock Holmes, não pela dedução lógica dos fatos, mas pela narrativa lenta e gradual dos eventos.


Acredito que Lovecraft figure já entre os maiores escritores de terror/suspense na literatura, apesar de até pouco tempo minha infeliz ignorância de sua existência.


De tudo o que li dele até este momento, preciso destacar um conto em especial. O conto “Ar Frio” revela uma tendência em Lovecraft, que parece tentar associar a técnica e tudo o que possa ser mais científico com a sempre presente busca do ser humano por vida eterna, ou, em outras palavras, fugir da morte. Neste conto um homem consegue um emprego em Nova York em uma revista e se vê de mudança para lá, ao que se hospeda num casarão de quatro andares, um casarão muito antigo, administrado pela Sra. Herrero, uma espanhola. No quarto acima daquele do jovem que mudará a pouco, hospedava-se o Dr. Muñoz, médico que parecia muito respeitável e discreto. Acabou que nosso jovem teve contato com o médico e ele ficou moralmente devendo ajuda, e acabou se tornando o ajudante do Dr. Muñoz. Revelou-se que o médico possuía alguma doença que era freada somente com uma temperatura muito baixa, por isso o médico criou um sistema de refrigeração de seu apartamento. No desenrolar do conto, acaba-se por descobrir que o médico era resultado de uma experiência sua, numa tentativa de reanimação do corpo depois da morte. Acabou-se que por defeito do sistema de refrigeração, o médico derreteu - literalmente - e a verdade veio à tona.


Por princípio nunca dou muitos detalhes do final da obra, neste caso do conto, mas o bom leitor já poderá imaginar algo com o pouco que ofereci deste conto, que como disse revela também está ansiosa vontade dos homens em retardar o “único fim inevitável”, parafraseando o eterno João Grilo de Suassuna.


Que Lovecraft possa admirar muitos leitores, assim como admirou a mim com seu estilo singular de terror.


3 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

コメント


bottom of page