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O Quinze, de Rachel de Queiroz

A própria desolação do ser humano acaba se transformando em uma fonte quase inesgotável de inspiração a escritores como Rachel de Queiroz. Livros como O Quinze, um drama situado em um período de seca extrema no sertão, não somente revela a desenvoltura de um escritor, mas acaba servindo de poesia documental daquilo que realmente muitos homens e mulheres sentiram na pele e nos ossos, com toda a crueza da realidade impiedosa.


A escritora Rachel de Queiroz traz coisas importantes neste drama, que podem passar como simples histórias tristes que nem sequer temos a dimensão, mas que podem nos fazer apontar algumas coisas interessantes sobre a vida universal do ser humano. Como é o exemplo de dona Cordulina, esposa do personagem Chico Bento, que no derradeiro caminho de retirante motivado pela desventurosa seca sertaneja, suporta a carga das dores diante de um filho morto por envenenamento, ao comer motivado pela fome, uma raiz imprópria ao estômago já maltratado. Por suportar a tristeza de um filho desaparecido junto das estradas empoeiradas, um filho do qual não se teve mais notícias. Por fim, sem saber que os filhos restantes sobreviveriam às desventuras da família, tenta oferecer ao filho mais novo, a possibilidade da vida junto de outra família, e assim, doa o próprio filho à outra alma feminina, que julgou capaz de cuidá-lo.


Em Cordulina podemos enxergar a visão de uma mulher decidida pela família, mas forte diante diante das situações que exigiram decisões importantes, ou para o bem dela mesma, ou para o bem da prole.


Mas além da mulher de Chico Bento, também devemos citar Conceição, uma história diferente da de Cordulina. Conceição não sofreu os males dos retirantes pela seca, mas sofreu, em certa maneira, pela “seca” existencial. Sua vida, mesmo educada em nível maior que os seus conhecidos, não lhe garantiam uma realização familiar como a de Cordulina, casada e com filhos, ou de Lourdinha, irmã de Vicente - primo de Conceição, mas que gozava de afeições carinhosas da mesma -. Conceição seria aquela moça que muitos, logo de cara, chamariam de “santinha”, mas que na realidade buscava não repreender os próprios impulsos de solidariedade, por meio de quaisquer artifícios ocos de valores morais e éticos, tipo estes que revelam somente o egoísmo que em certa medida, todos possuem. Conceição também nos transparece, especialmente diante da sua vontade em educar-se e manter sua habitual feição pela leitura, o quanto a mesma mulher consegue elevar e aprofundar seu espírito através deste exercício inegavelmente louvável. Para muitos poderia parecer dicotômico, num ambiente de seca e pobreza, uma mulher valorizar a leitura. Pois a escritora Rachel de Queiroz consegue nos orientar neste sentido, nos ajudando a eliminar imagens erradas acerca de todos os que vivem semelhante à condição geográfica. Viver em ambiente de seca e pobreza, não resulta, consequentemente, em analfabetismo cultural.


A obra O Quinze merece de todos os leitores maior atenção, mesmo que muitos ainda possam afirmar ser apenas uma narração simples de poucos personagens. Aqui destaco apenas duas personagens deste drama, duas mulheres, que em suas pequenas atitudes, diante de situações diferentes e decisivas, revelam a fortaleza que cada ser humano constrói em si mesmo.


Artigo publicado no informativo literário "O Leitor", de março de 2023.


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