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O Aristóteles de Olavo de Carvalho

Aristóteles continua sendo o marco de referência na filosofia ocidental, especialmente por conta de sua inegável (apesar de alguns terem menosprezado) coerência interna no conjunto de sua obra.


O professor e filósofo, Olavo de Carvalho, publicou já faz alguns anos seu estudo sobre a filosofia de Aristóteles em uma nova perspectiva, trazendo uma compreensão abandonada pelos intelectuais depois do avassalador modernismo que se impregnou nas academias e universidades. Em seu livro Aristóteles em Nova Perspectiva (2016) o filósofo traz a importante “descoberta” para nossos dias sobre a interligação dos famosos quatro discursos de Aristóteles: o poético; retórico; o dialético e o analítico.


Para quem acompanhou um pouco a vida pública deste escritor e filósofo, a polêmica e a controvérsia nunca ficaram longe de sua atividade intelectual. Assim foi com esta obra também, que lhe rendeu resistência nos grupos de intelectuais institucionalizados, como a SBPC (Sociedade Brasileira de Produção Científica), a quem ofereceu o estudo para apreciação e que foi simplesmente tratado como trabalho amador de séries fundamentais, provando o total desrespeito e arrogância de círculos fechados e de crachá, como este órgão que deveria ser a referência em seriedade e respeito a produções intelectuais que surgissem em solo brasileiro.

Mas deixando a polêmica de lado, o livro de Olavo sobre esta relação aristotélica faz saltar aos olhos de leitores e estudiosos sérios e atentos aquilo que por vezes incomoda muita gente séria neste meio de trabalho. Senti-me atendido em meus anseios ao ler que Olavo entende Aristóteles como eu inclino-me a entender em sua obra, como a busca gradual de unidade do conhecimento em vista da sabedoria, da sophia, que é a origem da filosofia mesma.


O estudo sobre os quatro discursos de Aristóteles por Olavo, “inova” ao que vemos na contemporaneidade, porque hoje todos (ou quase todos) depreendem que os discursos falam de assuntos ou ciências distintas o que sempre favoreceu o separatismo técnico no campo do saber, e que desfavorece historicamente a evolução da busca pela sabedoria, que precisamente surge mais compreensível pela gradualidade do que pelo separatismo histérico. Esta falta de gradualidade na busca pela sabedoria somente estanca a evolução mesma do intelecto humano, fingindo ser uma via de aperfeiçoamento tecnicista das várias áreas do saber, mas que na verdade, acomoda a inteligência humana em um nicho delimitado, que efetivamente o prende e alimenta aí os mais nefastos vícios egocêntricos que o espírito humano pode desenvolver. Isto parece-me que foge literalmente do que a filosofia sempre desejou alcançar, a sabedoria em si, que evolui o ser humano e o aperfeiçoa nas virtudes que o espírito clama por desenvolver.


Para chegarmos à analítica, devemos passar pela poética, retórica e dialética. A poética nos traz a primeira tentativa da comunicação humana em definir e transmitir a realidade daquilo que vê, daquilo que sente ao seu redor. Ainda não é precisa, nem rege-se por normas conceituais, mas é o mais evidente discurso primitivo e, por isso fundamental, do entendimento humano. Da poética necessitamos passar para a retórica, discurso que traz a herança simbólica da poética mas a organiza diante de um objetivo. Aqui na retórica busca-se a compreensão e fazer-se compreender a um objetivo ou realidade específica, destacando uma evolução do poético (mais abrangente e universal) ao retórico (do abrangente indo ao específico). Um passo importante para chegar à dialética como discurso de entendimento profundo da realidade que vai se desvelando. Este discurso é algo que Aristóteles traz de herança da Academia de Platão, onde foi aluno. A dialética como método de ensino passa a ser também processo de evolução em vista da sabedoria. Isto para que possamos alcançar a analítica, o que nos faz não somente conhecer a realidade, mas entendê-la em sua composição, em sua formação e sua possível evolução.


A obra de Olavo é um convite a aprofundar-nos mais nesta perspectiva dos quatro discursos de Aristóteles, buscando uma aproximação mais fiel do maior filósofo de todos os tempos.

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