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A agonia de um filósofo

 Agonizar nada mais é que sentir em si mesmo, no seu corpo e na sua mente, as dores de algo inevitável que na maioria das vezes não fora desejado. Costumamos lembrar dos agonizantes nos hospitais que diante da doença que lacera seus órgãos sente as "dores da agonia", um prefácio do suspiro final. Não é diferente pensar da mais famosa das agonias já conhecida pelos homens, a agonia de Jesus Cristo no Horto das Oliveiras, também uma antessala do consumatum est numa cruz entre dois ladrões.

Uma agonia não necessariamente encerra-se com a morte, com o suspiro final desta existência terrena. Sofremos de agonias que podem dilacerar nossa mente e nosso espírito diante de muitas outras situações que se apresentam em nossas vidas. E aqui gostaria de trazer à mente uma agonia tão antiga, tanto quanto a do próprio Jesus Cristo, que alguns seres humanos sofrem silenciosamente, mas experimentam uma dor horrível, não no corpo físico, nos órgãos, mas na mente, na consciência. A agonia de um filósofo precisa ser destacada, precisa ser conhecida pela massa nem sempre pensante senão apenas replicante.

Alguém dedicado honestamente à filosofia, dedicado a perscrutar as verdades sobre o mundo, o homem e o além do mundo e do homem, acaba supondo certas verdades incorrigíveis por justamente não serem passivas de alteração ou "melhora". O que chamamos de princípios fundamentais é para o filósofo honesto um pressuposto que não se coloca mais em evidência, precisamente porque ao questionar qualquer coisa já se deve ter o pressuposto. Assim, a fonte da agonia para um filósofo parece ser a insistência no mundo de hoje em tentar questionar o pressuposto, a verdade já conhecida, tratando assim de um retrocesso inimaginável para filósofos como Aristóteles, Santo Anselmo e Maritain, só para citar três de épocas distintas.

O ineptos que esforçam-se por alimentar esta agonizante tarefa, desejam levantar a dúvida sobre a própria existência objetiva da verdade, um negacionismo dialético que emerge do relativismo cultural. Assim, uma res pedra pode não ser mais pedra, afinal, porque não posso chamá-la de esponja? Mas não se trata somente de mudar o nome das coisas, nesta tentativa manifesta-se a perigosa empreitada de "mudar" o conceito para fingir que mudou a natureza das coisas. Deste modo, chamar a pedra de esponja pode ser a tentativa de tentar firmar uma mudança não meramente dialética, mas real da pedra para esponja e consequentemente "mudando" a natureza da esponja. 

Em si mesmo esta linha de trabalho é um absurdo colossal, o que faz qualquer filósofo honesto agonizar diante de mentes tão obtusas que de tanto "nada refletir profundamente" tentam mudar o que não desejam compreender. É uma inversão total e desavergonhada da natureza mesmo da filosofia, pois esta não existe para criar a verdade, senão para persegui-la e conhecendo-a, contempla-la e enfim divulgá-la. 

Talvez já tenhamos presenciado alguma pessoa, não necessariamente um filósofo, mas algum expert em algum outro ramo de estudo, se contorcer na cadeira após algum comentário divergente do seu, mas que segue esta tentativa de "criação da verdade". Esta pessoa que se contorcia na cadeira ouvindo determinado absurdo estava possivelmente passando por uma pequena agonia mental, imposta a ele pela obtusidade daquele que tentava discordar apoiando-se na desconstrução do pressuposto ou simplesmente desdenhando da existência dele. Não podemos deixar de sentir uma agonia mental diante de certos absurdos propostos como nova interpretação da verdade. Uma coisa que a verdade em si mesma não é, é passiva de reinterpretação. Ela é o que é, e tentar argumentar o contrário já é prova da inatingibilidade desta verdade pela mente que o faz.

O filósofo honesto sofre pela verdade não aceita como é. Sofre ainda mais quando esta mesma verdade é vilipendiada e desfigurada, pois sabe que desta forma quem perde é o desenvolvimento filósfico do ser humano.

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