Oração: Por justiça ou misericórdia?

A oração é a elevação de mente a Deus para louvar-lhe e pedir-lhe coisas convenientes à eterna salvação. (Summa Teol., II-II, 83)
Desde algum tempo insisto que pensar, escrever e falar sobre o tema "oração" nunca deve cessar-se entre os cristãos, e isto devido a realidade intrínseca desta ação do homem diante da realidade consciente da vida divina. Aqui mesmo neste site já compartilhei textos sobre a oração e destaco especialmente um que escrevi em 2010 sobre a oração mental. Um fato importante a lembrar para que não se esqueça desta insistência importante é justamente o fato do ser humano se temporalmente suscetível ao vício, às inclinações pecaminosas que o distanciam desta meta cristã, ou seja, que nos distanciam da vida eterna junto de Deus no Reino dos Céus.

Esta definição que trago acima, fixada pelo Doutor Angélico Santo Tomás de Aquino em
sua Suma Teológica, sempre serviu para a Igreja como guia de reflexão e ensinamento sobre o conteúdo mesmo da oração e dos seus reais efeitos sobre a vida humana. Não é difícil de vislumbrar num primeiro contato com esta definição a clara intenção de obter de Deus algo sumamente importante para o homem, mas seria a oração algo tão fácil e de retorno certo, imediato e gratuito? Certamente devemos refletir sobre isso com mais atenção, pois, apesar de sabermos que qualquer um pode e deve elevar sua oração a Deus seus efeitos de retorno ao agente da oração não são tão fáceis e imediatos como podemos logo imaginar. 

Na verdade, todos já experimentamos estar realidade, isto é, que quase sempre o que pedimos a Deus em oração não o recebemos ou se recebemos somente observamos este resultado algum tempo depois, o que frusta muitas pessoas.

Em sua definição, Santo Tomás têm presente uma diferenciação que existe na vida espiritual dos cristãos: a oração meritória e impetratória, e é sobre esta diferença que precisamos ter clareza para que não caiamos na comum frustração em nossa vida de oração.

Um oração ou petição meritória depende da justiça divina que disponibiliza o pedido diante da atual situação de graça do pedinte. Não é crueldade, é justiça que faz parte da caridade divina, ou seja, Deus nos concede o pedido por mérito se o temos, ou seja, se não temos pecados mortais em nossa alma que não foram confessados. Se pensarmos bem, não podemos esperar de Deus que suplante sua própria caridade que o leva a ser justo sempre, só porque necessitamos, talvez urgentemente, de algo mesmo levando uma vida de pecado sem arrependimento. É algo totalmente impensável em Deus uma "graça" a um consciente impenitente, por exemplo, conceder a um estuprador que Deus o cure de um câncer mesmo o estuprador não se arrependendo do que fez. De forma análoga devemos colocar outras situações de pecados não arrependidos que nos tornam alvos desta justiça divina ao fazermos nosso pedidos contanto com certo mérito diante de Deus que pensamos possuir.

Já a oração impetratória esta intimamente ligada à misericórdia de Deus, algo que não depende do estado de graça do pedinte. Assim, o cristão deve se portar mais como o publicano do evangelho que ora sem esperar milagres ou benefícios materiais imediatos de Deus através de sua oração. 

Assim, um modo de oração é respondido pela justiça de Deus e o outro é respondido pela misericórdia de Deus. 

Como disse antes, com esta clareza nossa oração pode, além de ser mais autêntica, muito mais eficaz em nossa caminhada para a santificação.

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