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≡≡ LEITURA RECOMENDADA

O conservador na guerra hermenêutica

Contra tudo o que pode parecer comum no mundo atual, o conservador não deixa-se levar pelas pressões sociais e grupais, que muitas vezes cobram altos preços pela aquesciencia ou pelo enfrentamento de ideias e posturas sem nenhum fundamento na realidade, sem nenhuma obediência a natureza mesmo das coisas criadas e sustentadas pelo Criador.  Claro que a imensa maioria destas ideias e posturas que pressionam o conservador originam-se de mentes negadoras da existência de Deus ou negam sua fundamental influência no mundo e na história, o que faz com  estas ideias e posturas já desenvolvam-se alienadas da ideia de um criador e sustentador da existência em seu ser. Esse pressuposto já traz um bom motivo para que o conservador desconfie de qualquer "boa ação" ou "boa intenção" que possa ser apresentada a ele, sendo patrocinada e impulsionada por quem pressupostamente desconsidera o fundamento da realidade existente. Já escrevi aqui sobre a fundamental insistência da mente

Primeira virtude cardinal: a fé

Primeiro falamos neste espaço dos sete pecados capitais. Foi uma série que teve uma amplíssima repercussão da parte dos leitores, e isso me alegrou muito. Mas e as sete virtudes cardinais?

Os pecados precedem as virtudes. Como diz um grande sábio, aquele que não pecou, não tem mérito em sua virtude porque não venceu nenhuma tentação. A maioria dos homens santos, de qualquer religião, geralmente tiveram uma vida dissoluta ou apática antes de se dedicarem à busca espiritual.

Portanto, uma vez terminada a série de pecados, e seguindo a lógica do caminho da Luz, dedicaremos as próximas colunas às sete virtudes cardinais, começando com a Fé. Elas são derivadas da soma de três virtudes teológicas, acrescentadas de mais quatro baseadas em Platão, que foram adaptadas por Santo Agostinho e São Tomas de Aquino (no que se refere às quatro virtudes complementares, há muitas divergências, de modo que resolvi escolher a lista mais convencional).

Segundo o dicionário: do Lat. fide, confiança s. f., crença religiosa; convicção em alguém ou alguma coisa; firmeza na execução de um compromisso; crédito; confiança; intenção; virtude teologal.

Segundo Jesus Cristo: “Disseram então os apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé. Respondeu o Senhor: Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: arranca tuas raízes, e planta-te no mar; e ela vos obedeceria”. (Lucas, 17: 5-6)

Segundo o budismo: “Nós somos o que pensamos. Com o pensamento, construímos e destruímos o mundo.

Nós somos o que pensamos. A sua imaginação pode lhe causar mais dano que seu pior inimigo.

Mas, uma vez que você controla seus pensamentos, ninguém pode ajudá-lo tanto, nem mesmo seu pai ou a sua mãe”. (Trecho Dhammapada, coleção de alguns dos principais ensinamentos de Buda)

Para o Islã: “Como purificamos o mundo?”, perguntou um discípulo.

Ibn al-Husayn respondeu: “Havia um xeque em Damasco chamado Abu Musa al-Qumasi. Todos o honravam por causa de sua sabedoria, mas ninguém sabia se era um homem bom. Certa tarde, um defeito de construção fez com que desabasse a casa onde o xeque vivia com a sua mulher. Os vizinhos, desesperados, começaram a cavar as ruínas. Em dado momento, conseguiram localizar a esposa”.

“Ela disse: ‘Deixem-me. Salvem primeiro o meu marido, que estava sentado mais ou menos ali’. Os vizinhos removeram os destroços no lugar indicado, e encontraram o xeque. Este disse: ‘Deixem-me. Salvem primeiro a minha mulher, que estava deitada mais ou menos ali.’

“Quando alguém age como este casal, está purificando o mundo inteiro através de sua fé na vida e no amor.”

A fé de negar a realidade: “Um ano atrás, eu fiz um discurso em um porta-aviões, dizendo que tínhamos conseguido atingir um importante objetivo, cumprido uma missão, que era a remoção de Saddam Hussein do poder. Como resultado, não existem mais celas de tortura, ou covas coletivas” (George W. Bush, 30 de abril 2004. Neste mesmo mês, o mundo veria as fotos de tortura na prisão de Abu Graib, e as execuções coletivas da guerra civil entre shiitas e sunitas continuam até o momento em que escrevo esta coluna).

Segundo o rabino Nachman de Bratzlava: um discípulo procurou o rabino e comentou: “Não consigo conversar com o Senhor”. “Isto acontece com freqüência”, respondeu Nachman. “Sentimos que a boca está selada, ou que as palavras não aparecem. No entanto, o simples fato de fazer um esforço para superar esta situação, já é uma atitude benéfica.”

“Mas não é o suficiente.”

“Tem razão. Nestas horas, o que se deve fazer é virar-se para o alto e dizer: “Todo-Poderoso, estou tão longe de Ti que não consigo nem acreditar na minha voz”. Porque, na verdade, o Senhor escuta e responde sempre. Somos nós que não conseguimos falar, com medo que Ele não preste atenção.”

(próxima semana: Esperança)

paulocoelho@paulocoelho.com.br
www.paulocoelhoblog.com/bruxadeportobello

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