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Cardeal venezuelano analisa o Instrumentum Laboris do Sínodo da Amazônia

“a revelação plena já teve lugar em Jesus Cristo, e não se pode utilizar em um documento oficial uma linguagem ambígua que escureça essa realidade teológica e doutrinal. O mínimo que se pode dizer é que é uma linguagem inapropriada e imprecisa, que sempre se deve evitar em um texto oficial. Bastaria falar simplesmente de manifestação de Deus. Uma das debilidades do texto é precisamente uma linguagem difusa, equívoca, imprecisa. Será necessário utilizar no Sínodo maior rigor conceitual, teológico e doutrinal”
INTRODUÇÃO

Dentro de poucos dias, começará o Sínodo Especial sobre a Amazônia, convocado pelo Papa Francisco para abordar "Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral".

Este é um Sínodo especialmente dedicado ao estudo dos problemas da Igreja em uma região particular, a Amazônia, que compreende boa parte da América do Sul. No entanto, é especialmente importante para toda a Igreja, pois tanto o Papa como aqueles que trabalharam em sua preparação dão a este Sínodo uma projeção universal. Desta forma, esta assembleia sinodal terá influência sobre toda a Igreja, e não apenas sobre os países amazônicos. Entre eles, é claro, nosso país, a Venezuela.

O Instrumentum laboris circula desde junho passado. Dada a metodologia dos Sínodos, que utilizam esses textos como base para a discussão sinodal, este documento se reveste de grande importância. Ainda mais porque, sem dúvida, é muito complexo e inovador, também em sua estruturação, e inclusive incômodo e muito polêmico, por isso tem sido muito controverso. Por esta razão me dediquei à tarefa de estudá-lo para – destacando suas fortalezas – ajudar à superação por parte dos padres sinodais das falhas e debilidades do texto.

CONTEÚDO DO INSTRUMENTUM

O mesmo tem três partes: a primeira, intitulada A Voz da Amazônia, dedicada a aspectos fundamentais da realidade social e cultural da Amazônia. A segunda, dedicada principalmente a problemas de ecologia e de ordem socioeconômica, intitulada Ecologia Integral: O clamor da terra e dos pobres. E a terceira, que apresenta propostas de ação pastoral: Igreja Profética na Amazônia: desafios e esperanças. No entanto, os diversos temas se misturam nas três partes, o que implica repetições, prolonga desnecessariamente o texto e reduz a clareza das abordagens. O mais abundante no texto são os temas culturais, ecológicos e socioeconômicos. Menos abundantes, mas extremamente e mais importantes para nós, pastores da Igreja, a evangelização e as propostas para a ação pastoral.

ACERTADA DEFESA DA AMAZÔNIA E DOS POVOS AMAZÔNICOS

Sem dúvida, é muito louvável o interesse em abordar a dramática situação da Amazônia, atualmente ameaçada por uma agressão economicista voraz e irracional. Um dos méritos do documento é que reúne as experiências, problemas e aspirações de muitas pessoas, ouvidas pelos membros da REPAM (Rede Eclesial Pan-amazônica), precisamente em preparação para o Sínodo. Por isso, o Instrumentum laboris aborda a grave situação tanto ecológica como social e econômica sofrida pelo território e pelos povos da Amazônia.

Como bispo venezuelano, apoio a denúncia e o rechaço que faz o Instrumentum laboris (I.L.) de toda a violência contra os povos e o território amazônico. Essa grave exploração também ocorre hoje na Venezuela. Concretamente, em nossa região amazônica, o atual governo promoveu no “arco de mineração”, ao sul de Orinoco, uma operação de mineração agressiva e desordenada que não leva em consideração a proteção do meio ambiente e os direitos dos povos indígenas.

Graças a Deus, o Instrumentum destaca e denuncia justa e acertadamente a gravidade dos atropelos que se estão cometendo contra os povos amazônicos, em particular contra os indígenas, chamados no texto “povos originários”. A agressão da ambição humana transformou a Amazônia em espaço de “desencontros e de extermínio de povos, culturas e gerações” (23). Essa agressão suscita e exige justamente a defesa da vida, do território e dos recursos naturais, assim como da cultura e organização dos povos (Cf.I.L.17). E, neste trabalho, a Igreja na Amazônia agiu com energia e – propõe acertadamente o documento –, sem dúvida deve continuar fazendo.

Apoiamos, pois, plenamente essa denúncia e o rechaço de toda injustiça. Isso está muito bem. Devemos estar de acordo com a defesa que o documento faz dos povos amazônicos e do ambiente natural, da ecologia dessa área privilegiada. Também de acordo em afirmar a obrigação da Igreja de acompanhar e proteger os povos oprimidos.

A BELEZA AMAZÔNICA E UMA ANTROPOLOGIA IDEALISTA

Uma observação importante: o Instrumentum laboris parece pensar que toda a população amazônica é indígena, originária. Não é verdade, pelo menos na Venezuela. Em nossa região amazônica, nas dioceses já estabelecidas – não nos vicariatos –, há uma maioria de criollos, venezuelanos de raça branca ou mista e afro-venezuelanos que não têm essa cultura indígena. Nem toda a população amazônica é originária ou indígena.

Outro aspecto que chama a atenção no texto é a visão otimista e laudatória, quase utópica, com a qual a população indígena da Amazônia é apresentada na primeira parte do texto. Esta, o território, é apresentada quase como uma espécie de paraíso terreno, de beleza sem limites (I.L. 22) “repleta de vida e sabedoria” (I.L. 5), onde os povos amazônicos – especialmente os indígenas, buscam o “bem viver”, que é viver em harmonia consigo mesmo, com a natureza, com os seres humanos e com o Ser supremo (Cf I.L. 11). Também se fala da natureza em uma redação alheia à visão cristã como um todo no qual estão assumidos os seres humanos, e como ‘Mãe Terra’ (em maiúsculas) tratando-a praticamente como uma pessoa (Cf. I.L. 44).

Por outro lado, o texto louva a sabedoria ancestral dos povos amazônicos manifestada no cuidado da terra, da água e das florestas... E propõe que os novos caminhos da evangelização sejam construídos em diálogo com ela, na qual se manifestam as sementes do Verbo (I.L. 29). “A diversidade original que oferece a região amazônica – biológica, religiosa e cultural – evoca um novo Pentecostes” (I.L.30). Por que essa diversidade original evocaria um novo Pentecostes? Seria necessário estudar em profundidade o que essa frase significa, à primeira vista, confusa e exagerada.

Algo romântica também é a descrição do povo amazônico originário – os indígenas – como seres excepcionais, que vivem em harmonia com a natureza e o ser supremo, e que personificariam um utópico ‘bom selvagem’, virtuoso, amável, ingênuo e crédulo. Este possuiria uma sabedoria em que se encontrariam as sementes do Verbo. É uma visão antropológica muito otimista, que ignora as deficiências das culturas indígenas, que omite suas limitações e falhas, e que é distinta e longínqua da altamente realista antropologia católica, da visão bíblica e cristã do homem, sem dúvida imagem de Deus, mas golpeado pelo pecado e em necessidade de redenção. Será por isso que se fala pouco sobre a necessidade de salvação e redenção, e se fala pouco sobre fortalecer intensamente a ação pastoral e abertamente evangelizadora da Igreja no Amazonas, como se Cristo não fosse necessário, e bastasse a utópica harmonia natural?

NOVA REVELAÇÃO?

Fala-se também dos clamores de justiça do território da Amazônia e se apresenta esta região, quase personalizada..., como um locus trheologicus, um lugar teológico, onde se vive a fé e o qual seria uma fonte nova de revelação de Deus (Cf. I.L. 18 e 19). Aqui encontramos um ponto problemático, de séria discussão, pois se atribui a um território particular e à luta pela justiça a categoria de nova fonte de revelação. Ou talvez: fonte de uma nova revelação?

Levemos em consideração que a palavra revelação no magistério eclesiástico e na teologia em geral é muito concreta e específica e significa a comunicação, desvelamento, manifestação que Deus fez de si mesmo à humanidade através de Jesus Cristo. Isso está muito claro no documento Dei Verbum, sobre a divina revelação, do Concílio Vaticano II (DV. 2). Sabemos que a revelação plena já teve lugar em Jesus Cristo, e não se pode utilizar em um documento oficial uma linguagem ambígua que escureça essa realidade teológica e doutrinal. O mínimo que se pode dizer é que é uma linguagem inapropriada e imprecisa, que sempre se deve evitar em um texto oficial. Bastaria falar simplesmente de manifestação de Deus. Uma das debilidades do texto é precisamente uma linguagem difusa, equívoca, imprecisa. Será necessário utilizar no Sínodo maior rigor conceitual, teológico e doutrinal.

DIÁLOGO E EVANGELIZAÇÃO

Nos parágrafos finais da primeira parte, o Instrumentum laboris aborda o tema do diálogo e da evangelização. Sem dúvida, é muito acertada a afirmação da necessidade do diálogo para evangelizar. Nosso Senhor Jesus Cristo dialogou com a samaritana. E assim nós devemos fazer hoje (Cf. I.L. 37). Mas o documento faz afirmações, à primeira vista, românticas ou excessivas. Apresenta-se a Amazônia como um paradigma para o pacto social do diálogo (I.L. 37); afirmando que são os povos da Amazônia, especialmente os pobres, os originários e culturalmente diferentes, os principais interlocutores e protagonistas do diálogo. Isso poderia ser aceito, se não fosse afirmado com um caráter excludente.

Mas: um diálogo sem proposta de conversão, sem convite a acolher ao Jesus como o único salvador, como o redentor do ser humano ferido pelo pecado? Por que não se diz expressamente? Parece estar ausente do texto o entusiasmo ou uma maior consciência, precisamente, da necessidade de que a Igreja realize ali uma ação mais intensamente evangelizadora, vital para a Igreja em todas as partes. Isso deveria estar no centro, no coração do texto e, logo, do Sínodo: a revitalização da Igreja na Amazônia. Mas parece estar ausente ou está muito fracamente expressa esta urgência de levar adiante a missão evangelizadora da Igreja. Pelo contrário, é preciso acolher o que o Papa Francisco diz sobre a evangelização na Exortação Apostólica Evangelii gaudium, 14:

“A evangelização está essencialmente relacionada com a proclamação do Evangelho àqueles que não conhecem Jesus Cristo ou que sempre O recusaram... Todos têm o direito de receber o Evangelho. Os cristãos têm o dever de o anunciar, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria”.

É verdade que se fala de novos caminhos, mas esses caminhos parecem, sobretudo, consistir segundo o I.L. em um diálogo com sabedorias ancestrais e em uma firme defesa da ecologia e das populações originárias. Isso não basta. Não se insiste no anúncio mais explícito do kerygma, e em uma ação mais abertamente evangelizadora, santificadora e pastoral de implantação e crescimento da Igreja em toda a Amazônia, e não somente para as populações originárias. Este desequilíbrio é uma grande debilidade do texto que nós esperamos que os padres sinodais cheguem a superar em suas deliberações.

Aprofundaremos sobre isso em um próximo artigo.
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