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Militante político: Um aprofundamento [pt2]

O artigo anterior encerrava-se com este questionamento: "O militante contemporâneo é escravo ou livre dentro do pensamento ideológico do grupo o qual defende?" Agora pretendo escrever sobre a resposta a esta pergunta, que em nada têm de irrelevante, mas parece-me fundamental para o entendimento deste fenômeno social hodierno do militante político.

Acredito que não é preciso aprofundar a escravidão como fenômeno não apenas físico, ou seja, a falta de liberdade de ir e vir para onde quiser, mas como prisão intelectual e moral, que não permite ao indivíduo pensar por si mesmo, raciocinar com sua própria intelectualidade, utilizando-se de suas categorias lógicas apreendidas durante a vida, sobre determinados temas, e junto a isto a escravidão moral que não lhe permite - por falta de liberdade de raciocínio - considerar certos julgamentos necessários. Penso que esta prévia já é o suficiente para escrever sobre esta possível escravidão ou liberdade no militante político.

Quando identificamo-nos com algum grupo social e buscamos conhecê-lo mais, sempre concordamos com determinadas diretrizes que este grupo fixou para si e consequentemente para seus afiliados. Estas diretrizes são aquelas normas e guias internas que identificam a atuação deste grupo social, isto qualquer estudante de antropologia consegue perceber, sem necessidade de psicologia social. Na escola os adolescentes já experimentam isto quando começam suas "rodas de amigos", que muitos ainda chamam de "panelinhas" ou "clubinhos", que por identificarem-se nos gostos, modos de falar e se comportar acabam sempre andando juntos e fazendo os trabalhos escolares juntos. Isto acaba também fazendo com que aparece um sentimento de pertença que dá segurança aos membros, especialmente nos momentos de crises e dificuldades com os outros colegas que não são do mesmo grupo, ou seja, acabam se defendendo. Apesar de não se tratar de "militantes", este comportamento bem humano acaba sendo um prelúdio para qualquer militância futura que estes indivíduos possam exercer. O que pretendo dizer aqui é que este modo de seguimento de idéias e costumes de viver faz parte da corruptibilidade do ser humano que necessita disto para completar-se de alguma forma, especialmente pelo sentido de segurança que enxerga nos seus correligionários. Nisto aparece outro dado importante nesta gênese da militância, a unidade. Ou seja, mesmo no exemplo escolar de antes, a união é fundamental para que os próprios colegas-membros se sintam seguros, amparados e defendidos nas adversidades. Assim, identifico três dados fundamentais para esta proto militância: identificação, normas, unidade.

Parece-me importante ressaltar estes três dados, porque entendo que estes fazem surgir o fenômeno do militante político. Sem identificação com algum partido, pela sua bandeira, pelas suas posturas, pelas suas personalidades que já fazem parte, o indivíduo não se aproximaria, e não havendo esta aproximação ele não buscaria conhecer mais e não conheceria, então, as normas ou diretrizes que regem este grupo ou partido. Nesta identificação e aceitação das normas ou diretrizes surge a necessária unidade no grupo, que podemos dizer que é, em certo sentido,  obrigatória sob pena de expulsão do grupo ou partido.

Tendo isto, como fica a resposta da pergunta que encabeça este artigo? Aparentemente tudo é feito com plena liberdade do individuo que decidi partilhar da experiencia que determinado grupo ou partido faz, mas aparece um ponto que acredito crucial: a segurança interna. Como dizia no exemplo de antes, os membros de um grupo sentem-se seguros e isto num militante politico é muito importante, pois raramente surgem pessoas independentes de grupos que politicamente fazem algum sucesso, defendendo idéias inovadoras sem o suporte de algum grupo ou partido. Um militante político necessita de segurança interna, e por isso ele nunca deixará completamente seu partido, porque é agarrado nestas idéias que sua suposta segurança se baseia e assim toca sua vida para frente.

Claro que isso não é uma atitude construtiva para o ser humano, afinal, devido a nossa corruptibilidade, estamos sempre propensos a erros e isto implica dizer que ser humano precisa aprender algo novo de tempos em tempos e talvez mudar concepções que não são tão vitais e absolutas para a retitude de vida. E é por isso que acredito na existência de uma escravidão "milito-política" que não nasce no inicio da militância num partido, mas que configura-se no momento em que surge a necessidade de revisão das ideias internas do grupo ou partido que defende, ou talvez até a auto exclusão do partido a qual defendia, pois numa revisão e maturidade a mudança diametral não é absurda.

Esta escravidão milito-política não é percebida de maneira clara pelo militante, pois em sua cabeça, o raciocínio é somente regido pelas categorias lógicas da pauta do partido, tornando-se inadmissível a validade de qualquer outra categoria que seja diferente ou contrarie completamente as que militantemente utiliza. É uma escravidão intelectual e moral, que não permite raciocínios fora da lógica interna partidária e isto leva a julgamentos que corroborem a lógica da bandeira defendida, independentemente se esta lógica pode contrariar princípios morais absolutos, como não matar ou mesmo, não ferir a liberdade absoluta dos indivíduos.

Como já disse no primeiro artigo, o que penso aqui não se refere exclusivamente ao entusiasta de uma ideologia de esquerda, mas refere-se ao militante de qualquer pensamento. Afinal, pode-se ser escravo milito-político de uma partido de direita? Claro. Pois não estou julgando aqui o conteúdo das normas ou diretrizes dos partidos, mas refletindo sobre o modus vivendi do que faz real e atuante na sociedade estas normas ou diretrizes, ou seja, o indivíduo milito-político.



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