sábado, 2 de junho de 2018

Falar-vos-ei do amor [parte IV]

O que pode ser análogo ao amor ordinário?

Parece difícil dizer, mas acredito que posso encontrar algo que facilite esta analogia. As características deste amor sempre me levam a pensar nas características de uma postura do cristão diante da vida no mundo.
Falo daquela espiritualidade cristã do contato quotidiano com Deus através da oração, ou melhor, de pequenas orações e mini reflexões durante o dia, distribuídas entre as atividades corriqueiras. Esta espiritualidade faz do cristão um  indivíduo permanentemente unido ao transcendente, algo que geralmente o torna mais capacitado a viver virtuosamente ao invés de deleitar-se nos vícios, desde o mais pequeno. De fato, este "modus vivendi" faz do cristão um ser melhor, mais contemplativo e dócil, o que é aprazível a Deus, pois Sua graça necessita de plena liberdade e abertura do indivíduo para cumprir Sua vontade.

Esta espiritualidade em quase tudo tem a ver com o amor ordinário, pois para começo de conversa, é algo tangível no dia a dia do indivíduo e por isso esta longe de ser apenas algo esporádico. Assim como o amor, pode cair nas mesmas armadilhas da rotina, como por exemplo o comodismo, sintoma de uma doença quase fatal para o bom desenvolvimento do amor, a indiferença. E não me digam que na vida espiritual não existe o perigo da indiferença, pois ela é um dos grandes males para o indivíduo que tem consciência de sua vida espiritual.

Este mal da indiferença se manifesta inicialmente através do sintoma do comodismo, uma espécie de conformismo com 'o estado atual da convivência, tornando-a sempre "mais do mesmo", não que exista a obrigatoriedade de inovações, mas que é preciso haver vivificação do que já existe. E utilizo a palavra "vivificação" para não utilizar a palavra renovação, que ainda resisto em utilizar a cerca do amor.

Mas falarei da "vivificação do amor" noutra ocasião, pois, queria falar especificamente sobre o mal do comodismo que tem seu desfecho mais trágico na indiferença, no amor ordinário. É fato que este amor esta tão próximo deste mal quanto esta na realidade do ser humano. O comodismo faz tudo parecer programado, até o fato de amar. Sim, o amor acaba assemelhando-se a um despertador que é programado para despertar em determinadas horas e minutos. 

Qualquer programação gera comodismo, pois nos alimenta a tendência humana de desobrigarmos ao esforço mental, ao esforço espiritual, ao esforço laboral. E isso vemos em qualquer área da atividade humana. Assim, os "te amo", os "beijinhos", os "abraços" acabam fazendo parte da rotina previamente programada. Imaginem: chego em casa do trabalho e encontro minha esposa na porta, dou-lhe um beijinho e entro em casa. Ligo para minha esposa para falar sobre a compra no mercado, falamos e ao final, antes de desligar digo "te amo, tchau". Em si mesmo, estas atitudes não estão erradas, pelo contrário, mas o mal esta na "programação mental" dos gestos, o que faz tudo fugir ao natural.

É preciso uma reflexão interior sobre nossas tendências ao comodismo, pois o que vem dele é como um câncer que mais adiante pode levar a morte. Sim, o amor pode morrer!

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