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quarta-feira, 27 de julho de 2016

O MANUSCRITO

O calor do verão parece insuportável pela intensidade na hora do meio dia. Estacionados perto da Biblioteca Pública, aguardamos sua abertura para nos dirigirmos até ela. Ali, parados dentro Fiat Pálio 97, estamos eu e mais dois colegas de aula, já aborrecidos pelo calor e pela espera. No outro lado da rua avisto dois cachorros sujos, de pelos arrepiados e ossos a vista - provavelmente por causa da escassez de refeições - e lembro de nossa aventura em uma cidadezinha de interior.
O sino da igreja badala, são 13 horas, e imediatamente saímos do carro, pois uma jovem que abordamos na estrada nos falara que nesta hora a Biblioteca abriria. E de fato, não estava enganada, e por isso ingressamos aliviados, pois a sensação térmica melhorou consideravelmente no interior da minúscula biblioteca. 

Não contei o que fomos fazer ali. Pois bem. Nos aventuramos nesta biblioteca específica para pesquisar um estranho rumor a cerca de dois exemplares de um manuscrito que somente existe nesta biblioteca. O rumor era de que, aquele que lia o conteúdo deste manuscrito começava a ter atitudes estranhas, diversas das habituais, como se o que tivesse lido afetasse seu comportamento psicológico. Meus colegas aceitaram acompanhar-me mais pela curiosidade do que pelo interesse no manuscrito em si, o que não era o meu caso, pois animei-me tanto para esta aventura que levara comigo até um pequeno scaner portátil para digitalizar tal documento.

Logo ao entramos na biblioteca, ouvimos uma saudação interiorana, com o sotaque sulista. Era a responsável pelo acervo de algumas dezenas de livros da humilde Biblioteca Pública. Sem muitos rodeios, falei-lhe do nosso interesse pelos dois exemplares do tal manuscrito misterioso. Ela olhou-me incrédula, pois julgava-se cética e portanto alheia a tal rumor das esquisitices daqueles que liam este manuscrito. Depois de uma pausa silenciosa, que deixou-me com a sensação de que nos julgava uns malucos, mostrou-nos a estante onde estaria o manuscrito.

Estavam os dois exemplares entre as obras de Érico Veríssimo e Castro Alves. Notei que a responsável não se preocupava muito em organizar as obras por alguma ordem preestabelecida, como é a praxe nas bibliotecas. Tendo-o nas mãos a primeira impressão foi de que se tratava realmente de um manuscrito elaborado com excelente caligrafia e não aparentava ter muitos anos, talvez uns dez. Confesso que exitei um segundo em abri-lo, não sei dizer se foi medo do desconhecido motivado pelos rumores, mas acabei folheando rapidamente entre as mãos para ver se todas as folhas estavam escritas e também para conferir quantas eram as páginas. Eram exatamente 25 páginas de uma mesma caligrafia uniforme.

Um dos meus colegas percebeu que no exemplar que ele examinava faltavam as duas últimas páginas, restando somente um exemplar completo, o que estava comigo.

Como estávamos sozinhos na pequena biblioteca, nos aproximamo-nos uns dos outros para lermos em voz alta. A leitura começava assim, "Todos estão mortos. Você precisa saber que não escapará também." Olhei para meus dois colegas, que se olhavam fixamente. Um deles, o mais raquítico pediu-me para não continuar e confessou esta com medo. O outro não confessou, apenas olhou-me e disse que talvez fosse uma boa ideia deixar para lá este manuscrito. Quando levantei a cabeça e olhei para a porta da biblioteca, o sino da igreja tocou novamente anunciando que passara meia hora desde que entramos.

Saímos daquela cidadezinha sem ler inteiramente o manuscrito. Na verdade lemos apenas duas pequenas frases. Acho que concordei com meus colegas por ter estremecido por encontrar um início tão abrupto, mas no meu íntimo cresceu ainda mais o desejo de conhecer toda esta história.

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