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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Oração: Condições para ser atendido

Irmã Ana Rafaela Maragno,EP
O homem, em sua debilidade, não pode, sem a graça, alcançar certos favores, mas poderá obtê-los através da oração, pois “o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26).

A oração deve estar presente em todos os dias da nossa peregrinação terrena; assim jamais haverá de nos faltar o necessário quando pedirmos socorro. Pode ser que a espera se prolongue, que não haja consolações interiores, ou mesmo sensação de completo abandono, na qual o Céu parece toldado por densas nuvens escuras. Sejam quais forem essas situações, estejamos certos de que nunca devemos desanimar nem desistir. Do mesmo modo como não nos esquecemos de tomar alimento, para manter o vigor e a saúde do corpo, assim também não devemos negligenciar a oração, para que nossa alma, faminta, não venha a desfalecer.
Não obstante, existe um problema. Sabemos, pelo Espírito Santo, o que devemos pedir. Mas, como enunciar essas súplicas e quais as condições para torná-las infalíveis diante de Deus?

As condições para ser atendido

“Se permaneceis em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito” (Jo 15, 7). Nosso Senhor promete de maneira clara, em inúmeras circunstâncias de sua vida terrena a onipotência da oração. “Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate abrir-se-á” (Mt 7, 7-8). Quem colocaria em dúvida o juramento do Divino Salvador? Quem ousaria contradizê-Lo?
Alguém poderia contestar, com argumentos pouco convincentes, mostrando que, em muitas ocasiões, essa promessa não se cumpriu e inúmeros pedidos pareceram não ter chegado nunca aos ouvidos de Deus. O Apóstolo São Tiago responde a essa objeção: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal” (Tg 4, 3).
Ora, se a prece mal feita não é atendida, quais são os requisitos necessários para a infalibilidade da oração? Quatro são, segundo São Tomás, as condições para obtermos aquilo que pedimos: “por nós mesmos, pedir coisas necessárias à salvação, devotamente e com perseverança”.1

“Por nós mesmos”

Quando alguém pede algo em favor de si próprio, já possui a disposição para receber a graça, mas, se intercede por outro, nem sempre este terá a alma aberta para acolhê-la e poderá colocar obstáculos à ação de Deus, como bem expressa Royo Marín: “Deus respeita a liberdade do homem, e não costuma conceder suas graças a quem não quer recebê-las”.2 Isto não significa que rezar pelo próximo seja ineficaz, mas, sim que não teremos certeza da utilidade da oração na vontade daquele por quem pedimos, pois, “a promessa foi feita, não para os que rezam para outros, mas para os que rezam para si mesmos: Dar-se-vos-á”.3

“Coisas necessárias à salvação”

Ao solicitar de Deus a graça da eterna salvação ou dos meios que a ela conduzem, Ele nunca deixa de atender, pois deseja-a mais do que nós mesmos e é Ele mesmo quem nos inspira os anelos de santidade. Contudo, por falta de sabedoria, nem sempre pedimos o que nos convém em ordem à felicidade eterna, donde o Criador, em sua infinita Bondade, não poderá nos conceder algo que venha a prejudicar a prática da virtude, pois, como diz Santo Agostinho “o que é útil ao doente, o médico sabe melhor do que ele.4
“Se não recebes, é porque pedes uma pedra. Porque, se é certo que és filho, não basta isso para receber, antes, a qualidade de filho é obstáculo para receber se, sendo filho, pedes o que não te convém, pelo contrário, também te garante que não podes receber quando peças o que não te convém. Não peças, pois, nada mundano; pede tudo espiritual, e infalivelmente receberás. […] Porque também vós – nos diz o Senhor –, que sois pais, esperais que vossos filhos vos peçam; e, se vos pedem algo inconveniente, lho negais; assim como, naturalmente, lhes concedeis o conveniente. […] Se com este espírito te aproximas de Deus e lhe dizes: “se não recebo, não me retiro”, indefectivelmente receberás. Isto sim, com a condição de que peças o que está bem te dê Aquele a quem o pedes e que te convenha a ti, que pedes.”5

“Devotamente e com perseverança”

Explica o “Doutor da oração”6, comentando o trecho citado de São Tomás, que na palavra “devotamente” o Doutor Angélico encerrou todas as condições que se requerem por parte do sujeito que ora; isto é, humildade, confiança e perseverança, sem deixar de rezar até o instante da partida deste mundo para encontrar o Supremo Bem, objeto dos anelos nas orações fervorosas feitas nesta Terra. Outro ponto é a insistência na oração.

Vejamos separadamente cada uma destas condições.

Humildade
“Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes” (Tg 4, 6). É próprio ao presunçoso contar consigo mesmo, depositando sua segurança nas capacidades que tem, sejam elas reais ou imaginárias, e confiando em suas próprias forças. Possui uma venda nos olhos e não quer pedir para ver a luz. O humilde, pelo contrário, reconhece que toda sua energia vem de Deus e nada pode sem Nosso Senhor Jesus Cristo.
Deus, diz a Escritura, “apaga a memória dos orgulhosos” (Eclo 10, 21), mas desdobra-se sobre os humildes, em atenções e ternuras, e sempre está pronto para derramar com abundância os tesouros de sua liberalidade.
Uma vez curvados ante a divina majestade, com o espírito despretensioso como o publicano da parábola (Cf. Lc 18, 9-14), devemos esperar com inteira confiança as graças pedidas. Ninguém, ao pedir um favor a outrem, crê não poder recebê-lo, pois, do contrário, não se atreveria a tentar conseguir o esperado. Se assim acontece entre os homens, como duvidar de Deus?

Confiança
Apraz a Deus nossa fé em sua misericórdia, porque deste modo reconhecemos sua bondade, manifestada ao criar-nos e ao conceder-nos tantos dons. Abandonando-nos completamente nas mãos do Criador podemos esperar grandes coisas, pois sua indulgência é uma fonte inesgotável e nossa confiança pode ser comparada a um vaso vazio: quanto maior for este, maior será sua capacidade de receber e, em consequência, maior o número de graças de que será cumulado.7
Essa confiança cega em Deus deverá ser conservada mesmo nas ocasiões de aridez espiritual, nas quais não parecem ser ouvidas nossas súplicas favoravelmente. Contudo, é preciso permanecer, segundo o conselho do Apóstolo, “esperando contra toda esperança” (Rm 4, 18). Assim, a oração tornar-se-á mais agradável à Divina Providência, pois nela reconhecemos nosso nada e calcamos a inclinação de auto-suficiência, inerente à natureza humana decaída, para esperar unicamente os bens que de Deus provêm.

Perseverança
Esta confiança caminha sempre intimamente unida a outro valor: a insistência na súplica. Em certos casos, Deus não atende nossa prece com a rapidez que nós desejaríamos, para provar nossa fé e esperança. Dada a inconstância consequente do pecado, Deus experimenta nossas disposições, para não sermos levados por qualquer vento dos sentimentos ou arrastados pelas ondas das paixões, mas darmos frutos na perseverança (Cf. Lc 8, 15).
Com efeito, muitas vezes, nos momentos de fervor, estamos animados por um desejo ardente, acompanhado da vontade de rezar e da certeza da obtenção da graça solicitada; entretanto, aparentemente recusado o primeiro pedido, – porque não é o momento oportuno de Deus conceder, ou mesmo porque Ele quer coroar nossa alma com o mérito da pertinácia –perdemos o entusiasmo inicial e abandonamos logo a oração.
Ao dirigir a palavra a uma pessoa, ninguém, após tê-la chamado uma primeira vez sem obter resposta e nem mesmo a sua atenção, desiste de falar-lhe novamente. Ao contrário, repete o apelo, até esta lhe prestar ouvido. Se assim agimos nas relações humanas, porque razão não insistir na prece feita a Deus? Ele nos acolhe antes mesmo de formularmos nossa petição, e não deixará de atender com largueza.
“Não sabemos quantas vezes quererá Deus que repitamos nossa oração para obter o que pedimos. Em todo caso, a demora mais ou menos prolongada ordena-se a nosso maior bem: para redobrar nossa confiança n’Ele, nossa fé, nossa perseverança”.8
É preciso bater à porta divina até ela nos ser aberta. Cabe dizer que, quanto mais a demora se prolongue, maior será o dom, quando ele vier. Deus sabe dispor a ocasião adequada para derramar seus favores. “Quando Deus tarda em intervir é por razões mais altas e porque certamente nos dará com superabundância”.9
“Deixai que Ele vos instigue a multiplicar vossas orações, não as atendendo senão depois do centésimo pedido. Ele disse que é preciso rezar sempre, deixai-o comportar-se em relação a vós de maneira a que rezeis sempre. Crede que isso vos será vantajoso”.10

Pedir a perseverança final

Quando devemos rezar? Sempre. Não há época, lugar e circunstâncias nas quais possamos dispensar a oração e nos abster da prática dela. Ela nos deverá acompanhar de modo contínuo até o momento de nossa morte, para o qual devemos implorar, sobretudo, a graça da perseverança final. Quantos são os pecadores arrependidos que tornaram a pecar, por não terem sido assíduos na oração! “Quem começa a orar deixa de pecar, quem deixa de orar começa a pecar”.11Salomão pediu a sabedoria e sua súplica agradou ao Senhor (Cf. 1 Re 3, 10), mas, no fim de sua vida, desviou-se seu coração e transgrediu a Lei de Deus (Cf. 1 Re 11, 4-10), porque não havia pedido a perseverança.
A vida do homem sobre a Terra é uma constante luta! (Cf. Jó 7, 1) E ai dos que não persistem na oração! Durante todo o tempo de nosso combate é preciso ter essa poderosa arma nas mãos. Ela nos torna robustos e alcança-nos o prêmio da vitória!
Teremos a certeza de que “se nossa oração reúne as condições que acabamos de mostrar, obterá infalivelmente, mais cedo ou mais tarde, o que nela pedimos a Deus. De fato, na prática obtemos muitíssimas coisas de Deus sem reunir todas estas condições, por um efeito superabundante da misericórdia divina. Mas, reunindo estas condições, obteríamos sempre, infalivelmente, – pela promessa divina e fidelidade de Deus em suas palavras –, inclusive aquelas graças que, como a perseverança final, ninguém pode merecer senão somente impetrar”.12
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NOTAS
1 “Ut sciliset pro se petat, necessaria ad salutem, pie et perseveranter” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. II-II, q. 83, a.15, ad 2. Para as citações da Suma Teológica, neste trabalho será sempre utilizada a tradução das Edições Loyola).
2 “Dios respeta la libertad del hombre, y no suele conceder sus gracias a quien no quiere recibirlas” (ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la Perfección Cristiana. 11. ed. Madrid: BAC, 2006. p.426. Tradução da autora).
3 SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 57.
4“Quid enim infirmo sit utile magis novit medicus quam aegrotus” (SANTO AGOSTINHO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. S.Th. II-II, q. 83, a.15, ad 2).
5 “Si no recibes, es porque pides una piedra. Porque, si es cierto que eres hijo, no basta eso para recibir; más bien la cualidad de hijo es obstáculo para recibir si, siendo hijo, pides lo que no te conviene, al contrario, también te garantiza que no puedes recibir cuando pidas lo que no te conviene. No pidas, pues, nada mundano; pide todo espiritual, e infaliblemente recibirás. […] Porque también vosotros – nos viene a decir el Señor –, aunque sois padres, esperáis que os pidan vuestros hijos; y, si os piden algo inconveniente, se lo negáis; así como, naturalmente, les concedéis y procuráis lo conveniente. […] Si con este espíritu te acercas a Dios y le dices: ‘Si no recibo, no me retiro’, indefectiblemente recibirás. Eso sí, a condición que pidas lo que está bien te dé Aquel a quien se lo pides y que te convenga a ti que lo pides” (SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía 23, 4. In: Obras de San Juan Crisóstomo: Homilías sobre el Evangelio de Mateo. 2. ed. Madrid: BAC, 2007. p. 479. Tradução da autora).
6 SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Op. Cit. p. 63.
7 Ibid. p. 73.
8 “No sabemos cuántas veces querrá Dios que repitamos nuestra oración para obtener lo que pedimos. En todo caso, la dilación más o menos prolongada se ordena a nuestro mayor bien: para redoblar nuestra confianza en El, nuestra fe, nuestra perseverancia” (ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe, nada te espante. 2. ed. Madrid: Palabra, 1982. p. 115. Tradução da autora).
9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Ressurreição de Lázaro. In: Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 39, mar. 2005. p. 9.
10 “Laissez-le donc vous pousser à multiplier vos prières, en ne les exauçant qu’après la centième demande. Il a dit qu’il faut toujours prier, laissez-le se conduire à votre égard de manière à ce que vous priiez toujours. Cela vous sera avantageux, croyez-le” (BOUCHAGE, F. Pratique des vertus. 2. ed. Paris: Gabriel Beauchesne, 1918. Vol. III. p. 380. Tradução da autora).
11 SANTO AGOSTINHO apud SPIRAGO, Francisco. Catecismo Católico popular. Trad. Artur Bivar. 6. ed. Lisboa: União, 1958. p. 291.
12 “Si nuestra oración reúne las condiciones que acabamos de señalar, obtendrá infaliblemente, más pronto o más tarde, lo que en ella pedimos a Dios. De hecho, en la práctica obtenemos muchísimas cosas de Dios sin reunir todas estas condiciones, por un efecto sobreabundante de la misericordia divina. Pero, reuniendo esas condiciones, obtendríamos siempre, infaliblemente, – por la promesa divina y fidelidad de Dios a sus palabras – incluso aquellas gracias que, como la perseverancia final, nadie absolutamente puede merecer sino solamente impetrar” (ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe, nada te espante. Op. cit. p. 115. Tradução da autora).
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