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terça-feira, 23 de junho de 2015

O Diabo em "O Idiota"

O personagem Ippolít disserta a Evguénii Pávlovitch, que o escuta um tanto desdenhoso do assunto:
Nem o senhor, um ás notório da ironia e um oficial da cavalaria [...], nem mesmo o senhor se dá conta de quão profunda e exata é a sua idéia. Realmente, cavalheiro, a lei de autodestruição e a lei de autopreservação são igualmente fontes da humanidade! Foi concedido ao diabo igual sobre a humanidade até um tempo que não nos é dado saber. O senhor esta rindo? Não acredita no diabo? Fazer pouco do diabo é uma idéia francesa, aliás bem frívola. Sabe o senhor quem é o diabo? Sabe o nome dele? Nem sequer lhe sabe o nome, o senhor, e se ri, é porque segue o exemplo de Voltaire, isto é, acha graça nos cascos, nos chifres, no rabo, enfim na forma alegórica inventada pelos senhores mesmos. Todavia lhe asseguro que o diabo é um espírito, e que esse espírito diabólico é sobremaneira ameaçador e nocivo, mesmo sem ter cascos e chifres que os senhores lhe inventaram. (O Idiota. Fiodor Dostoiévski, Ed. Matins Fontes, pg. 415)
Recolhi esta pequena passagem de "O Idiota", escrita por Dostoiévski, porque dentre algumas nebulosas manifestações deste autor em suas obras, esta parece ser a mais clara sobre o Diabo e quis destacá-la. Alguns podem julgar que o escritor russo estava sendo apenas sarcástico ou até mesmo irônico ao colocar na boca de um de seus personagens tal doutrina sobre o espírito maligno em pleno século da laicização, isto é, o período em que Dostoiévski viveu (1821-1881. Viveu os primeiros decênios após a recente Revolução Francesa). Mas acredito que ele tinha plena consciência tanto da existência como da poderosa influência desta personificação do mal no mundo e principalmente nas pessoas, nas mais débeis mental e espiritualmente.
Também não deixa de ser uma crítica, ao meu ver, a fato de citar Voltaire nesta conversa em torno de uma possível consideração tola a cerca do Diabo. Para muitos ainda hoje, Voltaire ainda é sinônimo de "iluminação", sinônimo de saída das "trevas" para a luz da ciência. Em certo sentido admito isso, pelo fato de que o período chamado "ilustração" significou: o homem considerando-se todo-poderoso com a arma "ciência". O "fazer pouco do Diabo é uma idéia francesa" nos revela esta insinuação da tola prepotência moderna nascida nas vaidades e revoluções deste povo outrora tão temente a Deus.

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