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domingo, 25 de novembro de 2012

DIREÇÃO ESPIRITUAL: Orientações para dirigidos

Valderi da Silva
Gostaria de começar esta nossa reflexão com um pensamento do Rabino Itschak Iaakov de Lublin: “É mais fácil encontrar um discípulo do que um rabino. Porque fazer crer é mais fácil do que crer. Dar é mais fácil do que receber. Enfim, ser aprendiz e mais humano do que ser mestre”.
A prática da direção espiritual se desenvolve a partir de duas figuras: do diretor espiritual e do dirigido ou dirigida (discípulo ou discípula). A direção emerge daí: do diálogo estabelecido entre ambos.
Um padre conta:
“No dia que ingressei no seminário, há vinte e três anos, logo no dia seguinte o reitor determinou que cada seminarista buscaria a direção espiritual com um dos três padres designados para tal ministério. Fiquei surpreso com aquela determinação, pois durante o período de preparação para o seminário não havia ficado claro para mim o que seria uma direção espiritual.
Após aquela conversa do reitor, na missa vespertina, nos apresentaram os três padres denominados de “espirituais” que iriam atender a direção espiritual de todos os seminaristas. O primeiro era gaúcho e de fala apressada e inquieto; o segundo um espanhol já de certa idade e de voz alta, já que era bastante surdo; por último, um padre novinho, com pouco mais de um ano de ministério e muito risonho. O reitor nos pediu que após quinze dias de convívio com a equipe de formação, incluídos aí os diretores espirituais, cada seminarista escolheria, entre os três, o seu orientador espiritual. Era preciso haver um mínimo de SIMPATIA e AFINIDADE.”
Na definição de William Barry, “a direção espiritual diz respeito a uma ajuda direta que se dá a alguém quanto ao seu relacionamento com Deus”. Não podemos confundir direção espiritual com ajuda pastoral ou existencial. É claro que a direção espiritual pode influenciar (e diria que vai influenciar) em soluções na vida existencial, mas nas conversas com o diretor elas não podem ser objeto de assunto.
Na direção espiritual o dirigido busca no orientador, de forma sistemática e profunda, indicativos para melhorar sua intimidade com Deus. Nesse caso, se supõe que o diretor espiritual deva ser um mestre de oração e de profunda união com Deus. Podemos lembrar aqui do episódio da conversão de Santo Agostinho. O seu mestre espiritual foi o bispo de Milão, Santo Ambrósio, com quem manteve longos colóquios para que sua fé fosse depurada do maniqueísmo e das experiências pagãs e se canalizasse para a vertente objetiva da fé no Deus único e verdadeiro.
Sobre a figura do Diretor Espiritual.
Este considerado diretor espiritual, deve ter o mínimo de qualitativos referente a função que vai exercer. Deste modo, é preciso que tenha muita capacidade de ESCUTA, que seja capaz de ouvir mais do que de falar. Que seja o primeiro a dar ótimo exemplo de vida de ORAÇÃO perante a comunidade. Que observe fielmente as VIRTUDES que são indispensáveis para o cristão aperfeiçoar sua fé. Que seja assíduo leitor e “gaste” bom tempo na meditação de PALAVRA DIVINA (lex orante). E por fim, que tenha uma grande COMPREENSÃO da natureza humana que o vai tornar capaz de ser interlocutor hábil junto ao assistido, obtendo com ele excelente resultado.
Sobre a figura do dirigido.
O dirigido deve possuir largueza de alma e um profundo desejo de se RELACIONAR e se abrir cada vez mais aos caminhos de Deus. A ESCUTA e a capacidade de ruminar as admoestações em vista do pleno amadurecimento devem estar presentes no dirigido. Além da Palavra de Deus e da Oração, não se descarta neste processo interativo entre dirigido e diretor espiritual a iluminação do instrumental de análise e de interpretação fornecidos pelas ciências do comportamento.
Considero importante que o dirigido possua SIMPATIA pelo diretor espiritual e, sobretudo, muita CONFIANÇA. Deve considerar a direção espiritual um ESPAÇO DE MUITA LIBERDADE onde tudo possa ser partilhado, sem receios e sem “rodeios”.
O dirigido deve rezar pelo seu diretor espiritual, comungar na intenção dele. Por ser uma pessoa humana, necessita da graça divina para instruir adequadamente o dirigido. Creio que esta solidariedade na oração ajuda muito o processo de amadurecimento na direção.
A relação do dirigido com o diretor espiritual.
Qual deve ser a relação a ser estabelecida entre o dirigido e o diretor espiritual?
De antemão vale lembrar que a direção espiritual não é apenas um desabafo ou uma conversa informal. Mas trata-se de um diálogo franco, aberto e com um claro objetivo: o crescimento espiritual do dirigido. Na direção espiritual não podemos considerar apenas a dimensão sobrenatural que envolve este ministério; é, também, um desabrochar de um relacionamento entre duas pessoas humanas e situadas dentro de um contexto também humano, movidos pela fé e desejosas de alcançar a plenitude da vivência cristã.
Deus sempre fala à pessoa humana utilizando sempre uma mediação também humana. O diretor espiritual, antes de tudo, deve ser uma pessoa aberta ao relacionamento humano e com Deus. Sua fé e sua experiência de Deus lhe outorgará o caminho do bom entendimento na ajuda humana e sobrenatural aos que lhe procurarem para a direção espiritual. Ele, por graça de Deus, realiza essa maravilhosa mediação.
A direção deve obedecer ao movimento cadencial do crescimento constante. Não pode ser um processo fechado ou repetitivo; a cada etapa elementos novos devem ser visualizados de tal modo que favoreça o amadurecimento do dirigido e a elaboração de seu itinerário de fé e vivência humana.
Quando o dirigido perceber que a direção não está rendendo e o esforço está sendo em vão, DEVE fazer uma avaliação com o diretor espiritual. Em certos casos, aconselha-se mudar de diretor. Se não houver sintonia e a abertura se tornar impossível, a mudança pode ser de todo benéfica. Lembro que a mudança de diretor espiritual deve ser discutida com o próprio diretor. Uma mudança que não obedeça o caminho da caridade, fere o bom senso moral e ético, alem de depor contra o próprio dirigido, principalmente se este faz parte de um seminário, instituto ou congregação religiosa.
Não é de se estranhar que o dirigido tenha que, em certos casos, questionar o seu diretor. Acontece que o acúmulo de trabalho ou o exagerado número de dirigidos, poderá impedir o diretor de estabelecer uma meta para o seu dirigido. Nesse caso, é lógico que a direção se torne enfadonha e o resultado será o esfriamento do caminho de crescimento do dirigido. Contudo, deve-se levar em conta as condições humanas do diretor, sobretudo se tratar de um padre cansado e sobressaltado pelo acúmulo de serviços pastorais, o que não é novidade por esse imenso Brasil, onde os presbíteros ainda são uma espécie rara!
A enganação na direção espiritual acarretará uma perca de tempo do diretor espiritual e a consequente derrocada espiritual do dirigido. Quando vejo na mídia ou através de outros meios as histórias desastradas de lideranças leigas, padres e religiosas, a primeira coisa que me vem à mente é que não foram verdadeiros na direção espiritual. Mentiram e falsearam, uma vivência de aparências. Quem tem problemas ou é problemático, carrega-lo-as por onde quer que vá.
O problema que se esconde na direção espiritual vai, mais cedo ou mais tarde, vir a tona e o descalabro é certeiro. O segredo está, repito, na abertura plena que brota da confiança que se estabelece, uma verdadeira resposta à ação do Espírito Santo. Vale ressaltar que o Espírito Santo é o nosso diretor espiritual interior. Ao ministro humano da direção espiritual cabe a perspicácia de auxiliar o dirigido à obediência ao ditames interior do Divino Consolador e Santificador.
No relacionamento dirigido/diretor, o dirigido não deve copiar o seu diretor. Há sempre o perigo de tornar-se uma fotocópia do diretor. O diretor mesmo deve ter o cuidado de não deixar que isso venha a ocorrer. O modelo será sempre Jesus Cristo. É para ele e, consequentemente, para suas virtudes, que o diretor deverá encaminhar o seu dirigido. Uma boa direção deve ser, antes de tudo, cristocêntrica. Aí está o grande sucesso da direção espiritual e a pujança de sua beleza.
Ovelha ou bode?
Para o afeiçoamento a Cristo, o dirigido deverá cultivar em si o espírito de ovelha. A ovelha, ao contrário do bode, deixa-se pastorear e conduzir às boas pastagens. O bode, ao inverso, não aceita ser conduzido, pois traz em si a autossuficiência e um espírito inquebrantável.
O dirigido deve se sentir como um bloco de mármore a ser trabalhado pelo cinzel do diretor espiritual que, paulatinamente, com o auxílio da Graça Divina, o ajudará a dilapidar as realidades pontiagudas que a vida velha lhe plasmou. A obediência é um grande dom, o próprio Cristo a testemunhou se fazendo obediente e dócil até a morte e morte de cruz (Fil. 2, 8).
Por fim...
Que o Senhor faça próspero o caminho dos que trabalham na orientação espiritual, sendo verdadeiros pastores e intercessores. Igualmente, faça que cada dirigido possa, exemplo de Moisés, olhar para além do deserto, do deserto da própria vida e suas contradições e mergulhar nas águas profundas do amor do Coração de Jesus.
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>> Leia também: Direção Espiritual: importância atual



























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