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sábado, 27 de outubro de 2012

XXX Domingo do Tempo Comum

Jr 31,7-9 Hb 5,1-6 Mc 10,46-52

Pe. Valderi da Silva

Queridos irmãos e irmãs.

Estamos nos encaminhando para o final deste Ano Litúrgico, o que nos indica que logo se apresentará um novo ano, aberto pelo tempo do Advento. Mas neste domingo precisamos pensar cuidadosamente sobre esta liturgia da Palavra que aqui nos foi proclamada.

Primeiramente, percebemos que na primeira leitura nos fica evidente a mensagem de que Deus está sempre atento ao seu povo, que Ele nunca se descuida e que se interessa pelo estado em que estamos vivendo. É interessante como isto é importante nos dias de hoje, inclusive para aquelas pessoas que chegam a pensar que Deus não esta mais a lhes cuidar, que Deus poderia estar “dormindo” ou até ter as abandonado. Muitos chegam a dizer que se trata de alguma doença, algo que biologicamente as teriam deixado sem a fé necessária para acreditar nesta verdade básica. Penso ser um tanto equivocado esta desculpa, principalmente se olharmos para a fé como algo indiferente ao corpo, dependente dele em certo sentido, mas algo que vive sem a necessidade de uma saúde perfeita. Por isso, posso estar até paralisado e mesmo assim ter fé; posso estar com alguma doença degenerativa e mesmo assim ter fé; posso estar sem a visão e mesmo assim ter fé; enfim, podemos perceber que não se perde a fé por alguma fatalidade no corpo, mesmo sendo atribuída a algum estado de profunda tristeza. Em realidade, o que se quer dizer é que não se perde aquilo que têm, somente se deixa de ter o que nunca se teve o suficiente. Por este motivo, o esforço sempre necessário para que aumente a nossa fé, deve sempre estar presente no espírito cristão.

Deus reúne os sãos e os doentes para poder dar-lhes a saúde, dar-lhes a vida digna que não possuem. É por este motivo que Jeremias exorta tão abertamente para que se entoem cânticos e rendam-se glória a Deus, pois é Ele quem sempre cuida de seu povo. Mas como? Livrando-nos do mal, que tira a beleza e a felicidade da vida, algo que deixa-nos cada vez mais afundados numa escuridão que parece o próprio fim de tudo. Deus tira o seu povo deste estado, cura-nos das doenças que nos pode levar a esta morte em vida.

Com a “plenitude dos tempos”, nos veio Jesus, a quem sabemos ser o Filho de Deus, mas que também nos revelou ser o Sumo e Eterno sacerdote, aquele possuidor dos dons necessários para a oferta perfeita em favor do regaste daqueles que viviam feridos pelo mal. É Ele quem oferece o mais digno sacrifico a Deus, que têm o poder de curar e salvar a todos, homens e mulheres, é por este motivo que Sua vida nos cura e salva.

Jesus desejou permanecer com seu dom curativo e salvador no meio de Seu povo, isto o fez por meio daqueles que Ele mesmo chamou para agirem em Seu nome. São pessoas saídas do meio do povo (cf. Hb 5,1), mas chamadas e capacitadas para exercerem o mesmo sacerdócio que Cristo exerceu enquanto estava entre nós. É somente Ele o que designa quem deve assumir esta missão, por este motivo a ninguém é dado o direito de manifestar-se se não foi chamado a esta missão. Perceptivelmente, vemos o quanto em nossa sociedade existem pessoas que se outorgam esta missão sem considerar isto que a carta aos Hebreus deixa entender. Somente os escolhidos por Deus podem agir na pessoa de Cristo, reunindo e curando em Seu nome.

Cena perfeita para esta compreensão se encontra justamente no evangelho de hoje. Nele escutamos que o cego Bartimeu, filho de Timeu, que era cego e mendigo, percebendo que era Jesus que passava pelo caminho onde se encontrava grita-lhe para que o Senhor ouça e possa atendê-lo. Podemos encontrar alguns elementos para uma oportuna reflexão.

1.Bartimeu era cego, portanto privado da visão natural do mundo a seu redor, o que lhe dificultava a percepção da realidade, visto que não podia captá-la de maneira completa. A cegueira provoca este estado de incapacidade diante do mundo, da realidade, dificultando a própria percepção da verdade das coisas. Agora podemos perceber o quanto este exemplo pode ser transferido a alguém incapaz de aceitar a verdade das coisas, verdade da vida humana e de Deus. Esta pessoa na verdade esta “cego”, está deficiente por esta cegueira que lhe impede de captar e perceber a verdade de forma completa. Esta cegueira é diferente desta do cego Bartimeu, ela é provocada pela paixão ao pecado, paixão ao materialismo exagerado, paixão egocêntrica que a faz, como um primeiro sintoma de defesa, relativizar tudo, não permitindo que se veja uma verdade única e universal.

2.Bartimeu vivia como mendigo, talvez não por causa de sua família, mas por causa de sua cegueira, já que naquele tempo, uma doença como esta era visto como castigo de Deus por algum pecado, então muitos não permitiam que tal pessoa vivesse sob o mesmo teto. Mas esta mendicância deve ser vista por nós como fruto da cegueira, de forma que uma pessoa absorta nos seus pecados, cega para Deus, vive na pior miséria que um ser humano pode conhecer: uma vida sem Deus. Certamente todos nós sabemos o que um mendigo faz para viver, ele pede esmolas, é justamente o que um “mendigo” faz por causa da cegueira do pecado: esmolar dignidade, esmolar felicidade, esmolar atenção para si. Evidentemente, aquele que vive assim, não percebe o estado em que esta, e aqui, talvez, esta pessoa se diferencie de Bartimeu, já que o cego do evangelho sabia-se cego e na miséria.

3.Mas não é isto, precisamente, o que Bartimeu nos ensina? De fato, precisamos olhar atentamente para nosso interior, pois somente aí é que poderemos perceber nossa saúde espiritual, poderemos perceber se nossa “visão” não esta nos traindo, se realmente conseguimos enxergar a realidade do mundo, da vida humana e de Deus. Isto é muito importante para conseguirmos nos realizar enquanto pessoa humana, mas principalmente enquanto filhos de Deus. Bartimeu nos mostra que percebendo nossa “saúde” debilitada é preciso recorrer a quem sabe-se ter o poder de restituir-nos o bom estado de vida, é preciso recorrer a Jesus Cristo.

4.Como percebemos no evangelho, Bartimeu teve que gritar a Jesus, algumas vezes. Não que Jesus o tenha ignorado, ou que simplesmente não tenha considerado tão importante sua situação para dar-lhe atenção naquele momento. Talvez seja, porque Jesus espera que, aquele que pede a cura e auxílio realmente peça com a força na medida de sua fé. Somente quem têm muita fé, insiste com Deus, pede-lhe sem desesperança, pois confia naquele a qual seu pedido se dirige. Evidente que, ao mesmo tempo em que devemos insistir com fé, devemos ter a compreensão de que nossa vontade nem sempre esta compatível com a Vontade de Deus.

5.O pedido de Bartimeu a Jesus é extremamente significativo para todos nós: Jesus pergunta, “o que queres que eu te faça?”, e Bartimeu responde, “Mestre, que eu veja!”. Caríssimos irmãos, por acaso não deve ser este nosso eterno pedido a Deus em nossas orações? Que possamos ver! Existe aqui uma pequena diferença no conceito de “ver” e “enxergar”. Elas nos remetem a mesma função, mas na verdade enxergar esta ligada mais a função do órgão corporal, os olhos, enquanto que “ver” pode significar algo mais profundo, como que ter a visão daquilo imperceptível aos olhos humanos, ver o que não esta tão visível, ter a capacidade de perceber a realidade oculta pela materialidade das coisas, perceber o que a nossos sentidos escapam. Bartimeu pediu a Jesus para “ver”, para que sua vida pudesse ter a dignidade e a felicidade que todo ser humano busca e que faz parte de sua finalidade.

Por fim, Jesus dá a resposta que todos nós aguardamos do Senhor: “vai, a tua fé te curou” (Mc 10,52). Podemos perceber um caminho que a fé percorre até chegar ao momento profundo e satisfatório de abandonar-se integramente aos cuidados de Deus. Parte de um pequeno assombro diante da possível fragilidade da vida que levamos, passa por um possível reconhecimento da doença que nos aprisiona a escuridão – ignorância e a miséria – sem a graça de Deus. Chega ao desejo de querer sair desta situação para buscar algo mais valioso e que realmente tenha valor. Há, então, o reconhecimento de que é em Deus que se irá conseguir esta mudança. Neste momento a fé em Deus já parece maior do que antes, então passa pela prova de fogo onde deverá ser aumentada esta fé, é o aparente silêncio de Deus, onde Ele aparenta não nos ouvir, é neste momento, então, crucial que a fé cresce, estaciona ou morre. Deus precisa esperar para que tenhamos a fé necessária para poder nos curar, para poder nos salvar, como fez ao cego e miserável Bartimeu.

Nossa caminhada de fé, precisa sempre ser levada como um trabalho de escultor, onde existem muitos reveses na obra, existem muitos dias difíceis, mas sempre a finalidade deve ser o motor para nunca deixarmos de trabalhar: conhecer a Deus, ver a Sua verdade, e desejar sua morada.

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