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terça-feira, 11 de setembro de 2012

Comunidade católica diante da legalização do aborto previsto no Anteprojeto do Código Penal brasileiro

(Parte I)
Conversa organizada por ZENIT entre o Prof. Paulo Fernando e o Pe. Paulo Ricardo

Por Thácio Siqueira

BRASILIA, terça-feira, 4 de setembro de 2012 (ZENIT.org) – São três os valores inegociáveis segundo Bento XVI – em discurso ao Partido Popular Europeu no ano de 2006: vida, família monogâmica e educação dos filhos. Valores estes que não podem “seguir a arte da política e da negociação”, - afirma Pe. Paulo Ricardo - em uma conversa organizada por ZENIT entre o Prof. Paulo Fernando Melo, vice-presidente Pró-vida e pró-família e membro da comissão de bioética da arquidiocese de Brasília, e o Pe. Paulo Ricardo Azevedo Junior, do clero da arquidiocese de Cuiabá, e famoso pregador brasileiro.

Oferecemos aos nossos leitores a primeira parte dessa reflexão. A segunda será publicada amanhã, quarta-feira, 5 de Setembro.

Prof. Paulo Fernando: Como é que o senhor vê a situação da comunidade católica, da sociedade no geral, diante dessa questão da legalização do aborto previsto no anteprojeto do código penal?

Pe. Paulo Ricardo: Na realidade, o católico está, infelizmente alienado da vida política. Enquanto católicoAborto 1 criou-se uma mentalidade de que porque o Estado é laico as pessoas não podem manifestar seus valores éticos e religiosos no mundo da política. Essa mentalidade é completamente absurda porque nós sabemos que toda lei manifesta um Ethos, toda lei manifesta uma visão de mundo e um quadro de valores. Ora, o Estado pode ser laico, mas os brasileiros são religiosos. E eles têm não somente o direito mas o dever de levar esse seu Ethos à própria confecção das leis. Ora, por causa dessa ideologia laicista o católico introjetou uma espécie de minoridade. Enquanto ele é religioso, católico, possui as suas convicções, mas é como se fosse um cidadão de segunda categoria. Só tem direito de se manifestar aquele que é ateu, materialista militante... o católico fica de lado. Na realidade precisamos acordar o católico consciente, convicto, praticante, fiel à Igreja e ao Papa, para a sua missão, a sua vocação no mundo da política. O diabo, na verdade, fez o trabalho dele muito bem feito. Colocou na cabeça do católico que política é para gente soncha, para pessoa soncha. Portanto, ele não deve imiscuir-se nesse ponto. É assim que, então, temos no Brasil uma situação bastante esdrúxula de uma maioria silenciosa que é governada quase que ditatorialmente por uma minoria que conseguiu amordaçar essa maioria.

Prof. Paulo Fernando: Padre, nós estamos em anos de eleições, para prefeito e vereador. O que diz a doutrina social da Igreja da participação efetiva de católicos na política? Quais são os critérios de um bom candidato para que o eleitor faça uma boa escolha?

Pe. Paulo Ricardo: Na verdade, nós devemos sempre olhar para o fato de que a Igreja não tem candidatos próprios, mas a Igreja orienta o fiel para escolher candidatos que trabalhem para o bem comum, homens e mulheres que tenham um histórico e uma competência para trabalhar para o bem comum. Essa realidade incide fortemente quando nós olhamos para o curriculum do candidato e vemos que ele tem ou não um histórico de defesa daqueles valores que o Papa Bento XVI chama de valores não negociáveis.

São três tipos de valores não negociáveis, praticamente, que o Papa colocou num discurso dele ao Partido Popular Europeu no ano 2006 (Clique aqui para ler o texto)  Primeiro: respeito à vida humana desde a sua concepção até a sua morte natural. Aqui entra toda a questão do aborto, da eutanásia, etc. Segundo: a família, constituída por um casamento monogâmico, único, indissolúvel, entre um homem e uma mulher. E esse é um valor que a Igreja considera não negociável. Ou seja, não há aqui a arte da política e da negociação. E terceiro: a educação dos filhos, ou seja, a liberdade dos pais de educarem os seus filhos sem ingerência do Estado naquilo que são os valores a serem transmitidos aos filhos.

Essas três colunas mestras estão sendo, hoje, atacadas frontalmente pelo abortismo, pelo gaysismo, pelo feminismo, e por um Estado cada vez mais aparelhado por militantes de esquerda que querem exatamente solapar essas colunas mestras da moralidade da civilização ocidental, que não é só algo específico nem do católico e nem do cristão, mas são os valores encima dos quais foi construída a civilização ocidental.

Prof. Paulo Fernando: Padre, o Senhor poderia esclarecer-nos se, de acordo com a doutrina e o magistério da Igreja, um eleitor que vote num candidato ou num partido que, sabidamente é contrário a esses valores que o senhor falou – se o partido claramente no seu programa defende a legalização do aborto – se, teoricamente, esse eleitor, votando deliberadamente nesse partido e nesse candidato, estaria incorrendo em pecado?

Pe. Paulo Ricardo: De fato existe uma situação bastante delicada no Brasil porque a realidade do nosso país é que, praticamente, todos os partidos tem nas suas plataformas, nos seus programas, políticas contrárias a esses valores. O que, na verdade, nós deveríamos atentar é para o fato não se os partidos tem ou não esse tipo de valores, mas se o partido permite ou não uma liberdade ao candidato de exercer o seu mandato a partir dos valores que ele professa. De tal forma que não aja uma rigidez ou uma disciplina interna no partido que obrigue os candidatos, uma vez eleitos, a uma camisa de força doutrinal. Então, nesse caso, se uma pessoa sabe que o partido tem esse tipo de disciplina interna, e que, portanto, não irá permitir ao candidato o exercício do seu mandato conforme os valores que o próprio candidato professa, então o eleitor tem a sua consciência gravemente honerada na hora de votar, porque sabe que está votando não num candidato com valores cristãos, mas num partido que irá impor seus valores anticristãos e imorais.

(Parte II)

Prof. Paulo Fernando: diante desse quadro da cultura da morte, o que, efetivamente, uma pessoa de bem, um cidadão católico, pode fazer? Será que estaríamos na beira do abismo e realmente não tem mais o que se fazer?

Pe. Paulo Ricardo: Devemos lembrar duas coisas importantes. Primeiro, nós não somos uma minoria insignificante. Nós somos uma maioria. Mas infelizmente somos uma maioria emudecida porque a classe falante está toda contaminada com a mentalidade anticristã e uma maioria mal articulada, não organizada. Nós então, precisamos, em primeiro lugar, nos conscientizar. Depois, uma vez conscientizados daquilo que é a situação que nós vivemos, estar dispostos a nos articular e trabalhar concretamente para este tipo de política favorável à vida. Nós precisamos crer no seguinte: a ação de Deus na história, é sempre uma ação em que, aquele que era aparentemente somente um Davi, pequenino, que lutava contra um Golias, termina alcançando a vitória. Então, existe, em nós, uma consciência de nossa pequenez. Apesar de sermos muitos, nós sabemos que qualquer vitória deve ser uma vitória de Deus. Mas, a vitória de Deus só acontece quando nós agimos. Qualquer pessoa que trabalha nesse campo, na evangelização, no meio da política e na ação social, e trabalha a favor das coisas de Deus, já experimentou o fato de que as nossas pequenas ações, de pequenos Davis, são potenciadas enormemente por Deus, de tal forma que embora sejam poucos os cristãos e católicos conscientes no âmbito da política, as nossas ações são agraciadas. Deus nos dá a graça. Por isso podemos contar com ela. Podemos contar com o fato de que uma pequena pedrinha pode causar uma grande avalanche, de que o pequeno Davi pode sempre destruir o exército dos Filisteus.

Prof. Paulo Fernando: o senhor falou que Deus nos pede a luta e não a vitória, mesmo porque a vitória já é nossa, em Jesus. Agora, qual o conselho que o senhor dá às pessoas que se sentem vocacionadas para isso? Como o senhor falou, que sejam preparadas, que sejam compromissadas, que tenham uma postura como pai de família, como patrão, como empregado, como pessoa engajada na comunidade, na sua paróquia, na sua igreja, na sua diocese; e por que muitas vezes, não há esse estímulo para que as pessoas de bem possam ingressar também no mundo da política?

Pe. Paulo Ricardo: O princípio da sabedoria é o temor de Deus, diz a Sagrada Escritura. Nós temos que ter a plena consciência de que não estamos nesse mundo para vivermos uma comodidade e um paraíso aqui nessa terra. Nós estamos aqui para preparar o céu. Estamos aqui para realizar a vontade de Deus que preparou para nós uma felicidade no céu. Então, qualquer pessoa que entra nessa luta sem fé na salvação que nos é dada por Deus e na esperança de alcançá-la, é uma pessoa que tem uma grande probabilidade de perder a luta porque o inimigo conta com isso. O inimigo – e nosso inimigo maior é Satanás, o demônio, e não as pessoas – conta com o fato que nós, amedrontados, vivamos um cristianismo, mas um cristianismo burguês, acomodado, onde sim faço a vontade de Deus, desde que isso não me custe muito; desde que isso não tenha um preço. A partir do momento em que a fidelidade a Deus começa a exigir um preço, as pessoas desistem. Os conselhos que posso dar bem concretamente aos cristãos leigos e aos sacerdotes inclusive, é ter os olhos fixos em Deus, no céu, para não nos deixarmos distrair pelas seduções do mundo, pela comodidade aqui desta terra. É uma luta a vida do homem sobre a terra. Nós estamos aqui para lutar. E sabemos que Deus irá vencer. Não há nenhuma dúvida de que Deus vencerá. A única pergunta é: de que lado nós estaremos quando Deus vencer? De que lado nós estaremos quando Ele proclamar a sua vitória. Então, precisamos viver esse mundo com os olhos fixos no céu. Sabendo que é essa a nossa missão. Estamos aqui na terra preparando o nosso céu. Qualquer coisa que se distraia dessa realidade vai resultar numa traição. Nós precisamos saber que um dia estaremos diante do trono da graça, seremos julgados por Deus, e que precisamos ser fieis a Ele.

Prof. Paulo Fernando: e agora, nas considerações finais, o senhor acha que nós devemos rezar pela conversão desses abortistas? Quais são as nossas intenções nas nossas orações nessa luta contra a cultura da morte?

Pe. Paulo Ricardo: Veja, a realidade espiritual deve estar sempre ancorada também na ação. As duas coisas devem caminhar juntas: rezar pela conversão deles, rezar também pelas famílias, mulheres, crianças, pessoas que estão envolvidas nos crimes de aborto, mas sobretudo precisamos ter em mente o fato de que no Brasil estamos vivendo uma situação de extrema urgência. Nós temos nesse momento, duas realidades extremamente urgentes nesse país. A primeira que é toda uma ação do executivo, onde o ministério da saúde e a secretaria para a defesa dos direitos das mulheres estão implantando uma série de procedimentos para facilitar o aborto cometido através de medicamentos por mulheres, e estamos também diante de um projeto do código penal que, se não legaliza o aborto de fato, pelo menos o legaliza na prática porque atenua enormemente a penalidade do aborto e o torna uma daquelas infrações de menor importância e portanto não passíveis de punição. Essas duas realidades são verdadeiro golpe na democracia brasileira. Nós brasileiros somos, na sua maioria, contrários à prática infame do aborto e gostaríamos que isso continuasse assim. O valor da vida humana é um direito inegociável, é algo que nós não podemos ceder. Essa realidade deve ser defendida por nós católicos, antes de tudo na oração, na nossa confiança em Deus e entrega à Nossa Senhora, mas também na ação, onde nós estejamos dispostos a pagar o preço pela nossa fidelidade a Deus. Existe um livro escrito por um autor protestante, chamado C S Lewis, “Cartas de um diabo ao seu aprendiz”. Nesse livro o demônio mais velho ensina ao mais novo como levar uma alma ao inferno. E diz assim: mantenha as orações dele, ou seja, da pessoa que você quer levar ao inferno, muito devotas e espirituais, fazendo com que, no entanto, ele não se preocupe nunca com as doenças das pessoas que estão ao seu redor, das suas necessidades concretas e com a ajuda que ele poderia prestar às pessoas que mais necessitam. Precisamos rezar, confiar em Deus, mais precisamos também agir. Por mais que seja uma ação humanamente irrisória, mas esta pequena ação de milhões de pequenos Davis serão potenciadas por Deus, que pela sua graça dará vitória ao seu povo.

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