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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Homilia do Prelado do Opus Dei na festa de São Josemaria Escrivá

Queridos irmãos e irmãs
Por ocasião de outros aniversários, já comentámos as leituras da Missa em honra de S. Josemaria. Hoje gostava que detivéssemos a nossa atenção na mensagem que o fundador do Opus Dei nos transmitiu: a santificação da vida corrente, tal como a pregou Jesus Cristo e se nos apresenta nos textos do Génesis, da carta de S. Paulo aos Romanos e na passagem do Evangelho da Missa de hoje.Sao Josemaria Escriva

Consideremos a parte final do texto do Génesis que acabamos de escutar: o Senhor Deus pegou no homem e colocou-o no jardim do Éden a fim de o cultivar e, também, de o guardar (Gn, 2, 15). O convite para trabalhar, enquanto complemento da obra da criação, é a vocação original de cada mulher e de cada homem. Com razão podia, pois, S. Josemaria afirmar que qualquer trabalho honrado é «um meio necessário que Deus nos confia na terra, alongando os nossos dias e tornando-nos partícipes do seu poder criador, para que ganhemos o nosso sustento e, simultaneamente, recolhamos frutos para a vida eterna» (S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 57). Deste modo convidava-nos a descobrir de novo Deus, tanto nos trabalhos importantes como nas ocupações quotidianas, que se podem converter em sólido fundamento da santidade pessoal.

Esta dimensão original do trabalho é a razão mais profunda do direito de todos a uma ocupação profissional que lhes permita viver e atender as necessidades da sua família. Infelizmente, nas circunstâncias atuais, muitos países sofrem a praga do desemprego, que causa tantas preocupações e incomodidades a inúmeras famílias. Rezemos pelas autoridades civis e pelos responsáveis pela vida pública, a todos os níveis, para que, iluminados pela Sabedoria divina, saibam encontrar e pôr em prática as medidas idóneas para fazer sair as suas nações da atual crise, respeitando plenamente a dignidade das pessoas e o bem comum. Confiemos esta intenção a Deus por intercessão de S. Josemaria, apóstolo da santificação do trabalho.

Somos filhos de Deus!

A segunda leitura recorda, com palavras de S. Paulo, que nós, cristãos, somos filhos de Deus, guiados pelo Espírito Santo. O Apóstolo retira, desta afirmação, uma consequência imediata: "não recebestes um Espírito de escravidão para cair no temor; mas um Espírito de adoção filial pelo qual clamamos: "Abba, Pai!" (Rom8, 15).

Paulo tem bem presentes os medos e as angústias da sociedade do seu tempo, submetida a múltiplos poderes, em grande parte malignos, característicos do antigo paganismo. Por esta razão, como explica Bento XVI numa das suas encíclicas, aqueles povos viviam imersos em temor, mesmo tendo muitos deuses; «mas os seus deuses - comenta o Papa – revelaram-se discutíveis e, dos seus mitos contraditórios não emanava qualquer esperança. Apesar de terem deuses, estavam "sem Deus" e, consequentemente, encontravam-se num mundo tenebroso, perante um futuro sombrio.» (Bento XVI, Carta enc. Spe salvi, 30-XI-1007, n. 2). Os cristãos, pelo contrário, enquanto filhos de Deus, sabem que têm um futuro luminoso. «Não é que conheçam em detalhe o que os espera - prossegue o Santo Padre -, mas sabem, em termos gerais, que a sua vida não acaba no vazio. Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna vivível também o presente» (Bento XVI, Carta enc. Spe salvi, 30-XI-1007, n. 2).

Meditemos frequentemente esta realidade: sou filho de Deus, sou filha de Deus; e, perante este dom, é lógico que tratemos de dar sentido sobrenatural a tudo o que fazemos. S. Josemaria costumava repetir que o sobrenatural, quando se refere aos homens, resulta plenamente humano. Se correspondermos à graça, estamos em condições de manter um diálogo permanente com Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, em qualquer circunstância e atividade.

Esta grande maravilha da nossa fé, irmãs e irmãos queridíssimos, deveria encher-nos de valentia para enfrentar com confiança em Deus e serenidade as dificuldades que se vão apresentando na nossa existência; também as que derivam da atual crise económica e da falta de trabalho. Apoiados nesta certeza, podemos fazer nossas as palavras do salmo responsorial: laudate Dominum omnes gentes, em resposta às promessas que o próprio Deus nos dirige: pede-me e te darei as nações em herança e os confins da terra para teu domínio (Sal2, 8). Mas temos de pedir com fé e perseverança que se resolvam positivamente os sofrimentos resultantes da falta de trabalho. Unidos firmemente à Vontade de Deus, que orienta todos os acontecimentos para o bem dos que n’Ele crêem, podemos repetir: Servi ao Senhor com temor, aclamai-O com respeito (...). Felizes todos os que confiam no Senhor (Sal 2, 11-12)

Contemplámos, uma vez mais, no Evangelho o grande prodígio da primeira pesca milagrosa. De um ponto de vista humano, a ordem de Jesus - deitar as redes em pleno dia, após uma noite estéril - parecia inútil e absurda. Além disso, Pedro e os outros eram pescadores de profissão: conheciam bem o seu trabalho, e as zonas mais escondidas do lago de Tiberíades não tinham segredos para eles. Apesar de tudo, eles obedecem: in verbo autem tuo laxabo retia (Lc 5, 5), porque Tu o dizes, lançarei as redes. Não vos causa admiração a fé de Simão Pedro? Também nós precisamos de fé para fazer frente às vicissitudes da nossa existência, especialmente àquelas que exigem uma resposta generosa aos desígnios de Deus.

O Ano da Fé

Dentro de poucos meses, em Outubro, começa o Ano da Fé, convocado pelo Papa. Como nos estamos a preparar? Fazemos atos explícitos desta virtude antes de receber o sacramento da Confissão ou o da Comunhão? Dirigimo-nos a Deus com fé na oração, face às diversas obrigações próprias de uma vida cheia de ocupações profissionais? Procuramos aproximar do Senhor as pessoas queridas, os amigos, os colegas de estudo ou de trabalho? Não esqueçamos - porque é verdade - que Deus deseja servir-se de cada uma e de cada um de nós para que os outros O conheçam, tenham intimidade com Ele e O amem.

Vede como a fé abre todas as portas de par em par e descobre horizontes que pareciam fechados. Este é o ensinamento da passagem evangélica. Obedecendo ao mandato do Senhor, Pedro e os seus companheiros lançaram as redes: assim fizeram —conta S. Lucas — e apanharam grande quantidade de peixes. As redes já estavam a romper-se, e eles fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para os virem ajudar. Eles vieram e encheram os dois barcos, a ponto de quase se afundarem (Lc 5, 6-7).

Que grande lição de fé e de obediência a Deus! Jesus também nos convida a nós a santificarmo-nos em todas as circunstâncias correntes da vida e a lançar as redes do apostolado no mar do mundo.
Peçamos à Virgem Maria, mediante a intercessão de S. Josemaria, que cada um saiba escutar a voz de Cristo e empenhar-se – insisto - para que essa voz soe nos ouvidos de muitas outras pessoas. Deste modo seremos, como os Apóstolos, seguidores de Cristo e pescadores de homens no meio das nossas ocupações habituais.

E, naturalmente, peçamos ao Senhor - como bons filhos do Sucessor de Pedro - que ajude o Santo Padre, os Bispos, os sacerdotes, na sua missão de Pastores que sabem dar a vida para servir a todas as almas. Amen.

Roma, Basílica de Santo Eugénio, 26-VI-2012

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