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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Ciência e Religião, o eterno debate

“Havia duas vias para chegar a verdade, e decidi seguir ambas”, declarava Georges Lemaître, um dos pais da cosmologia física contemporânea, que era também sacerdote [1]. “Nada em meu trabalho, nada do que aprendi em meus estudos científicos ou religiosos me fez modificar este ponto de vista. Não tenho que superar nenhum conflito. A ciência não destruiu minha fé e a religião nunca me levou a questionar-me sobre as conclusões as que chegava pelos métodos científicos”.Fe e Ciencia

Que relações existem entre as ciências contemporâneas e a teologia, entendida como discursos que dão uma explicação racional de uma tradição religiosa? Estão totalmente dissociadas ou, pelo contrário, entrelaçadas, ou somente são complementares? Georges Lemaître, partidário do “discordismo”, sustenta que as posturas cientificas e o enfoque teológico são diametral e herméticamente opostos; se encontram tão distantes que não podem influir um no outro.

Outros partidários deste modelo adotam um postura diferente. Segundo o “princípio NOMA” (Non-Overtapping Magisteria – magistérios não superpostos) invocado pelo paleontólogo norte americano Stephen Jay Gould [2], as ciências e as religiões são magistérios com conhecimentos diferentes, tais que não se invadem uns a outros, mas não por isso se encontram absolutamente separados. Permitem um diálogo continuo. Gould utiliza a metáfora da água e o azeite. Esses dois elementos não se misturam, mas seu contato é íntimo.

Uma interação frutuosa

É um erro, replicam os adeptos de um segundo modelo, chamado “concordistas”: os dados cientificos podem servir diretamente a teologia. Conceitos dos dois âmbitos podem corresponder – concordar. Assim, entre o Big Bang e a Criação há um interação frutuosa. Mas este modelo faz surgir numerosas interrogações.

A variante do “concordismo” cai de cheio neste erro. Exemplo: como os cientistas não têm uma teoria da gravitação quântica para descrever  a evolução do universo nos primeiros instantes que se seguiram ao Big Bang, se atribue à criação divina. Pois bem, Deus não suporta aqui nennhum elemento de explicação; passa a ser uma mera causa física imersa em outras causas físicas. Mas Deus não é uma causa de ordem física.

O “discordismo” evita este caminho visto que permite um diálogo sereno e respeitoso entre cientistas e teólogos, negando-se a recorrer aos saberes de um destes âmbitos para avançar ao outro. No entanto, não existe o risco de que a separação seja demasiada, até o ponto de privar a uns e outros de elementos úteis para sua própria reflexão?

Daí surge um terceiro modelo que é contrário ao “concordismo”; rechaça toda fusão entre ciências e teologias mas estabelece um diálogo indireto entre elas, graças à mediação que oferece uma receira disciplina, a filosofia em sentido amplo.

No ponto de partida deste modelo se esta solidificado que a ciência suscita inevitavelmente dilemas filosóficos que a superam, como as questões de sentido ou de ética.

Por sua parte, os filósofos podem recorrer as diversas tradições religiosas para dar respostas adequadas. Estas servem ao cientista não para avançar em suas investigações em sentido estrito, mas para ajudar-lo a resolver as perguntas que todo ser humano se coloca. E, sobretudo, as teologias podem aproveitar por sua vez o trabalho filosófico suscitado e fecundado pelas ciências. Esta trajetória das ciências até as teologias é fruto de um trabalho constante em função do progresso dos conhecimentos científicos. Em uma primeira etapa, este traslado suscita interrogações e, em uma segunda etapa, brinda respostas filosóficas confrontadas com as teologias.

Causas naturais ou intervenção divina?

Voltemos ao exemplo do Big Bang. Um cientista “concordista” poderia afirmar que não é mais que a criação do mundo, em sentido teológico. Pois bem, essa afirmação não sería cientificamente legítima: a física só se baseia em causas naturais embora que a criação, em sentido teológico, significa uma intervenção de Deus no físico, ou “meta-física”.

A posição “discordista”, que pretende impedir todo diálogo entre cosmologia e teologia acerca do mesmo Big Bang, não resulta satisfatória. Mas uma reflexão filosófica sobre o sentido do Big Bang como princípio físico do cosmos pode ajudar o teólogo a explicar e definir os nexos e as diferenças existentes ente os conceitos de “princípio físico”, “origem metafísico” e “criação divina”, e a definir melhor o sentido estritamente teológico desta última.

A criação em sentido teológico pode significar o surgimento do mundo em seu ser em virtude de uma causalidade divina, mas pode significar também ema relação mediante a qual Deus sustenta constantemente  o universo em sua existência, conferindo-lhe o ser. Este “surgir” não pode conceber-se como a iniciação de um processo situado no tempo físico posto que é justamente o que gera o espaço, o tempo e a matéria. Do mesmo modo, não pode fixar-se esta “relação criadora” como uma causalidade física, posto que é precisamente a causa de todas as causas físicas.

Deste esclarecimento filosófico poderam emanar novas maneiras de expressar, em teologia, as relações enter o tempo e a eternidade, entre o Mundo e Deus. Como contrapartida, dará também lugar a um melhor conhecimento do alcance e os limites das ciências.

Assim, para uns, ciências e religiões são amigos inseparáveis mas profundamente diferentes; para outros, amigos cujos laços só existem graças a intervenção de um terceiro “em discórdia”; para outros ainda, amigos que são autênticos “gêmeos”; e, por último, dois indivíduos aos que não une nenhuma amizade, já que nunca se encontram.

Relações que vão da fusão à fisão.

Dominique Lambert - doutor em ciência física e filosofia pela Universidade Católica de Louvain, é professor de filosofia e história da ciência na Universidade Faculdades Notre-Dame de la Paix de Namur. (d.lambert@fundp.ac.be)

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[1] Entrevista ao New York Times Magazine, 19 de fevereiro de 1933

[2] Et Dieu dit: “Que Darwin soit”, Seuil 2000, París.

*Tradução do espanhol: Blog VALDERI

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