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terça-feira, 19 de junho de 2012

Bento XVI: A força da oração incessante

Audiência Geral

Praça de São Pedro

Quarta-feira, 9 de maio de 2012

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje gostaria de meditar sobre o último episódio da vida de são Pedro, narrado nos Actos dos Apóstolos: o seu aprisionamento por vontade de Herodes Agripa e a sua libertação através da intervenção prodigiosa do Anjo do Senhor, na vigília do seu processo em Jerusalém (cf. Act 12, 1-17).Bento XVI e Ostensorio

A narração é mais uma vez caracterizada pela oração da Igreja. Com efeito, são Lucas escreve: «Enquanto Pedro estava encerrado na prisão, a Igreja orava a Deus instantemente por ele» (Act12, 5). E, depois de ter deixado milagrosamente o cárcere, por ocasião da sua visita à casa de Maria, mãe de João chamado Marcos, afirma-se que «numerosos fiéis estavam reunidos a orar» (Act 12, 12). Entre estas duas anotações importantes que explicam a atitude da comunidade cristã diante do perigo e da perseguição, são narradas a detenção e a libertação de Pedro, que dura a noite inteira. A força da oração incessante da Igreja eleva-se até Deus e o Senhor ouve e realiza uma libertação impensável e inesperada, enviando o seu Anjo.

A narração evoca os grandes elementos da libertação de Israel da escravidão do Egipto, a Páscoa judaica. Como aconteceu naquele evento fundamental, também aqui o gesto principal é levado a cabo pelo Anjo do Senhor, que liberta Pedro. E se as próprias acções do Apóstolo — ao qual se pede que levante depressa, ponha o cinto e cinja os rins — corroboram as do povo eleito na noite da libertação por intervenção de Deus, quando foi convidado a comer depressa o cordeiro com os rins cingidos, as sandálias aos pés, o cajado na mão, pronto para sair do país (cf. Êx 12, 11). Assim, Pedro pode exclamar: «Agora sei verdadeiramente que o Senhor enviou o seu anjo e me arrancou das mãos de Herodes» (Act 12, 11). Mas o Anjo evoca não apenas aquele da libertação de Israel do Egipto, mas também o da Ressurreição de Cristo. Com efeito, narram os Actos dos Apóstolos: «De repente, apareceu o Anjo do Senhor e a masmorra foi inundada de luz, tocando-lhe no lado, e disse-lhe: “Ergue-te depressa”» (Act 12, 7). A luz que enche o espaço da prisão e o próprio gesto de acordar o apóstolo estão relacionadas com a luz libertadora da Páscoa do Senhor que vence as trevas da noite e do mal. Finalmente, o convite: «Cobre-te com a capa e segue-me» (Act 12, 8), faz ressoar no coração as palavras da chamada inicial de Jesus (cf. Mc 1, 17), repetida depois da Ressurreição no lago de Tiberíades, onde o Senhor diz duas vezes a Pedro: «Segue-me» (Jo 21, 19.22). É um convite premente ao seguimento: só vivemos a liberdade verdadeira se sairmos de nós mesmos, para nos colocarmos a caminho com o Senhor e cumprirmos a sua vontade.

Gostaria de ressaltar também outro aspecto da atitude de Pedro no cárcere; com efeito, notemos que, enquanto a comunidade cristã reza com insistência por ele, Pedro «estava a dormir» (Act 12, 6). Numa situação tão crítica e de perigo sério, é uma atitude que pode parecer estranha, mas que ao contrário denota tranquilidade e confiança; ele confia em Deus, sabe que está circundado pela solidariedade e pela oração dos seus e abandona-se totalmente nas mãos do Senhor. Assim deve ser a nossa oração: assídua, solidária com os outros, plenamente confiante em relação a Deus, que nos conhece no íntimo e cuida de nós, a tal ponto que — diz Jesus — «até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! Não temais, pois...» (Mt 10, 30-31). Pedro vive a noite do cativeiro e da libertação do cárcere como um momento do seu seguimento do Senhor, que vence as trevas da noite e liberta da escravidão das correntes e do perigo de morte. A sua libertação é prodigiosa, caracterizada por vários trechos descritos cuidadosamente: orientado pelo Anjo, não obstante a vigilância dos guardas, atravessa o primeiro e o segundo posto de guarda, até à porta de ferro que introduz na cidade: e a porta abre-se sozinha diante deles (cf. Act 12, 10). Pedro e o Anjo do Senhor percorrem juntos uma parte do caminho até que, voltando a si, o apóstolo se dá conta de que o Senhor realmente o libertou e, depois de ter meditado, vai à casa de Maria, mãe de Marcos, onde muitos dos discípulos estão reunidos em oração; mais uma vez, a resposta da comunidade à dificuldade e ao perigo é confiar em Deus, intensificar a relação com Ele.

Aqui, parece-me útil evocar outra situação difícil, que foi vivida pela comunidade cristã das origens. Fala-nos dela são Tiago na sua Carta. Trata-se de uma comunidade em crise, em dificuldade, não tanto devido às perseguições, mas porque no seu interior há invejas e conflitos (cf. Tg 3, 14-16). E o apóstolo interroga-se acerca do motivo desta situação. Ele encontra duas razões principais: a primeira é deixar-se dominar pelas paixões, pela ditadura dos próprios desejos, pelo egoísmo (cf.Tg 4, 1-2a); a segunda é a falta de oração — «não pedis» (Tg 4, 2b) – ou a presença de uma oração que não se pode definir como tal — «Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para satisfazer os vossos prazeres» (Tg 4, 3). Segundo são Tiago, esta situação mudaria se a comunidade falasse totalmente unida com Deus, se rezasse realmente de modo assíduo e unânime. Com efeito, também o discurso sobre Deus corre o risco de perder a sua força interior e o testemunho esgota-se, se não forem animados, sustentados e acompanhados pela oração, pela continuidade de um diálogo vivo com o Senhor. Uma exortação importante inclusive para nós e para as nossas comunidades, quer pequenas, como a família, quer as mais vastas, como a paróquia, a diocese e a Igreja inteira. E isto faz-me pensar que rezavam nesta comunidade de são Tiago, mas rezaram mal, somente para satisfazer os próprios prazeres. Temos que aprender sempre de novo a rezar bem, a orar realmente, orientando-nos para Deus e não para o nosso próprio bem.

Ao contrário, a comunidade que acompanha o cativeiro de Pedro é uma comunidade que reza verdadeiramente, durante a noite inteira, unida. E a alegria que invade o coração de todos quando, inesperadamente, o apóstolo bate à porta é irreprimível. São a alegria e a admiração diante da obra de Deus que ouve. Assim, da Igreja eleva-se a oração por Pedro, e na Igreja ele volta para narrar «como o Senhor o tinha tirado da prisão» (Act 12, 17). Naquela Igreja onde ele é posto como rocha (cf. Mt 16, 18), Pedro narra a sua «Páscoa» de libertação: ele experimenta que no seguimento de Jesus encontra a liberdade verdadeira, é envolvido pela luz resplandecente da Ressurreição e por isso pode testemunhar até ao martírio que o Senhor é o Ressuscitado e «que verdadeiramente o Senhor enviou o seu anjo e o arrancou das mãos de Herodes» (Act 12, 11). O martírio que depois padecerá em Roma uni-lo-á definitivamente a Cristo, que lhe tinha dito: quando fores velho, outro te há-de levar para onde não queres, para indicar o tipo de morte com que ele havia de dar glória a Deus (cf. Jo 21, 18-19).

Caros irmãos e irmãs, o episódio da libertação de Pedro, narrado por Lucas, diz-nos que a Igreja, cada um de nós, atravessa a noite da provação, mas é a vigilância incessante da oração que nos sustém. Também eu, desde o primeiro momento da minha eleição como Sucessor de são Pedro, sempre me senti sustentado pela vossa oração, pelas preces da Igreja, principalmente nos momentos mais difíceis. Agradeço de coração. Com a oração constante e confiante, o Senhor liberta-nos das cadeias, guia-nos para atravessar qualquer noite de cativeiro que possa afligir o nosso coração, infunde-nos a serenidade do coração para enfrentar as dificuldades da vida, até a rejeição, a oposição e a perseguição. O episódio de Pedro mostra esta força da oração. E mesmo aprisionado, o apóstolo sente-se tranquilo, na certeza de que nunca está sozinho: a comunidade reza por ele, o Senhor está-lhe próximo; aliás, ele sabe que «a força de Cristo se manifesta plenamente na fraqueza» (2 Cor 12, 9). A oração constante e unânime é um instrumento precioso também para superar as provações que podem surgir ao longo do caminho da vida, porque o facto de estarmos profundamente unidos a Deus permite-nos estar também profundamente unidos aos outros. Obrigado!


Saudação

Saúdo os grupos nomeados de Portugal e do Brasil e todos os peregrinos lusófonos presentes nesta Audiência, particularmente os sacerdotes da Diocese de Zé Doca, acompanhados de seu Bispo, Dom Carlo Ellena. Assim como a oração da primeira comunidade sustentou Pedro na dificuldade, hoje também o seu Sucessor sabe que pode contar com as vossas orações. Que Deus vos abençoe. Obrigado!

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