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sábado, 24 de março de 2012

V Domingo da Quaresma

Jr 31,31-34 Hb 5,7-9 Jo 12,20-33

Pe. Valderi

Nesta caminhada quaresmal ingressamos na última semana antes da Semana Santa, e já sentimos através da liturgia toda a angústia de Cristo, pois mesmo antes de iniciar o desfecho do calvário sente a agonia do sofrimento que irá passar.

Eis que virão dias... em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança (v.31). Deus, em sua eterna sabedoria, já no Antigo Testamento dava anúncio aos homens de Seu plano de salvação para a humanidade, anunciando, como faz neste livro de Jeremias, uma Nova Aliança que firmará com a humanidade resgatando-os da escravidão como o fizera no Egito. Lá, no Egito, os libertara da escravidão infligida pelos próprios homens, os egípcios, agora os liberta da escravidão do pecado, o que é a pior das escravidões. Pior porque não trata a pessoa escrava com tolerância e o mínimo de dignidade, como faziam os egípcios ao povo escravizado. O pecado é o pior dos escravizantes, trata-nos como pleno objeto, nos jogando a margem da vida, nos deixando sem qualquer dignidade, é assim, por exemplo, alguém escravizado pelo prazer corporal, fazendo de si objeto e tratando ao outro também como simples objeto de seu prazer momentâneo, algo que certamente não lhe trará a felicidade que espera.

Esta Nova Aliança que Deus deseja selar com Seu povo não vêm eliminar a Antiga Aliança, mas vêm acrescentar, completando a plena salvação do gênero humano. Por isso, dizemos que Cristo não veio abolir a lei e os profetas, mas veio para dar pleno cumprimento a tudo o que disseram da parte de Deus (cf. Mt 5,17). Isto faz parte da missão de Jesus, realizar no ser humano uma verdadeira mudança de vida a partir do que Deus já revelou ao mundo além de mostrar o que ainda não tinha sido revelado. Imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de inscrevê-la em seu coração... (v.33), deste modo Deus nos converterá definitivamente para Sua vida. Sua Nova Aliança selada com Jesus será a mais perfeita de todas as alianças visto que somente o Filho de Deus o poderia realizar deste modo. E foi justamente na consumação de sua vida que se tornou causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem (Cf. Hb 5,9).crucificacao

Neste evangelho já percebemos que a hora de Cristo se aproxima e Ele tenta preparar seus discípulos para este momento. Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado (Jo 12,23). Para o evangelista João a Hora de Jesus é a hora da glorificação e esta hora é a hora da Cruz. Na cruz é que Jesus é glorificado, nela Ele recebe a glória do Pai por este imenso sacrifício por Seu povo: cordeiro manso e humilde, levado a morte sem nenhum protesto. Este momento de glorificação de Cristo é a necessária exaltação do Filho que faz o Pai. Em realidade não são os homens que glorificam Jesus neste momento da cruz, é o Pai que o faz, somente Ele pode dar a glória que o Filho merece. Nós elevamos louvores a Cristo e exaltamos seu sacrífico por cada um de nós, mas nossa glória a Cristo ainda é insuficiente para lhe cobrir dos louvores merecidos e dignos Dele, é preciso que alguém como Ele o possa fazer, por isso Deus Pai, igual ao Filho em divindade, glorifica a Jesus: eu o glorifiquei e o glorificarei de novo (v.28).

Junto a estas palavras de anúncio de sua hora, Jesus ensina a importância de sua morte para a edificação e assim também a importância de nosso esforço e trabalho. Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto (v.24). A morte ocasionada pela intenção justa, tende a produzir algum fruto, assim nosso trabalho esforçado, honesto e com intenção santa, e que às vezes nos faz doar mais do que era pedido, sempre apresentará frutos. Jesus fala do grão que deve morrer para produzir frutos para nos dizer que sem sacrifício não há vida, sem sacrífico não se nos apresentará os frutos necessários para nossa vida. Temos que ter esta dimensão do sacrifício presente em nossa vida como algo constante como é a oração. Através desta “espiritualidade do sacrifício” podemos tornar nossa vivência cristã muito mais praticável, pois esta visão do sacrifico como algo importante como é a oração, nos faz ver tudo com olhar transcendente. Ou seja, a cada tarefa difícil que recebemos, a cada momento inesperadamente sofrido pelo qual temos que passar, a cada doação de nosso tempo que alguém ou alguma situação exige, em tudo isso, colocando este olhar do sacrifício como algo que gera frutos quando realizado justa e honestamente, além de os suportar com mais amabilidade e com menos frustrações recebo, pelos méritos do sacrifício realizado, graças de Deus. Temos então, nesta espiritualidade do sacrifício fonte de bençãos e graças para nossa vida além de colaborar com o próprio sacrifício de Cristo pela humanidade.

Contrário a este olhar do sacrifício esta a pessoa que se apega à sua vida e por isso não consegue realizar nada que lhe exija algum esforço altruísta, que a force a sair de si e de sua acomodação para realizar algo em prol de alguém ou de alguma situação. Jesus fala destas pessoas e afirma que quem se apega a sua vida perde-a, quem ama exageradamente a si mesmo não conseguindo ver além de si, vive para este mundo, não morre para ele, mas pode estar morrendo para Deus além de não produzir nada.

Agora sinto-me angustiado. E que direi? 'Pai, livra-me desta hora!'? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim (v.27). Jesus tem plena consciência que sua missão culmina com a cruz que o levará a morte inevitável mas tão necessária. É o sacrifício necessário para que os frutos apareçam. A semente do amor de Deus cai na terra, se encarna e por um tempo vive com os homens, mas tem que morrer para gerar frutos e estes frutos de vida eterna nasceram e Crucificado (salvador dali)permaneceram para sempre, são os filhos de Deus nascidos pelo sacrifício de Cristo. Foi para esta hora que Cristo veio ao mundo, não para fugir da morte nem da perseguição, mas para entregar Sua vida em resgate do ser humano que estava constantemente ameaçado pelo mal. Por isso Jesus não pode implorar ao Pai que o livre desta hora de sofrimento e morte, pois isto seria desistir de Sua missão, desistir de resgatar o ser humano de sua perdição, seria trair a Si mesmo, pois trairia Seu amor. Cristo não poderia agir de outro modo a não ser morrer para que ganhássemos a vida.

O mundo até Cristo, perdido entre o mal e a incompreensão da vontade de Deus, se encontrava infestado pelas influências do maligno, com Seu sacrifício Cristo julga a situação em que o mundo se encontra e expulsa o “chefe deste mundo” determinando a partir de então que não é ele quem influência a obra criada, mas é Deus seu Criador e sustentador.

Chegando na reta final deste tempo quaresmal nos vamos colocando no clima deste sacrifício de Cristo, e vamos interiorizando esta realidade da cruz e da morte não como tragédias que nem podemos imaginar em nossas vidas, mas como situações necessárias para que vejamos frutos de boas obras surgirem, pois sem morte não há vida, se não morrermos para este mundo não nascemos para a vida eterna.

Nossa disposição nesta quaresma seja a do salmista: criai em mim um coração que seja puro, dai-me... um espírito decidido (Sl 50,12), decidido a trabalhar doando a vida, pois desejamos ter esta consciência que Cristo nos pede, perder a vida por causa de Seu amor, para ganhar a vida eterna, e ver frutificar nossos sacrifícios unidos ao de Cristo.

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