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terça-feira, 27 de março de 2012

Ivan Ilitch e eu

“Tinha a impressão de que ele e a sua dor estavam sendo empurrados para dentro de um saco negro, estreito e profundo, mas, por mais força que fizessem, ainda não conseguiam empurrá-los até o fundo. E esta sensação terrível vinha acompanhada de grande agonia. Ele estava apavorado e ainda assim queria cair para dentro do saco. Debatia-se e ao mesmo tempo cooperava. E eis que então, subitamente, rompia o saco, caia e recuperava a consciência.” (TOLSTOI, Leon. A morte de Ivan Ilitch. L&PM Pocket, 2006, pg. 85)

A angustiante sensação de inexistência parece-se com o que Ivan sentia em sua enfermidade dupla. Digo dupla, pois, aquele que lê a obra percebe que sua doença não se trata somente daquela do corpo que o leva a morte inevitável, mas aquela do espírito, e esta é que o faz travar a mais dura batalha. Sinto-me às vezes como Ivan, envolto por uma sensação de angústia por duvidar da própria “existência”, o que não se trata de sintoma de loucura, mas talvez de fraqueza espiritual. O pequeno trecho desta obra de Tolstói que destaquei acima, nos dá uma mostra da inexprimível sensação que Ivan deveria sentir, algo, que em outras palavras, expressamos sem saber o que dizer: minha vida acabou... não sinto onde pôr os pés. Pois, esta é uma sensação de inexistência, e por isso passei, e acredito que muitos já passaram em suas vidas. Ivan parece tentar cair logo para este abismo escuro, onde certamente a queda é eterna, onde não mais recuperamos a consciência e inexistimos para todo sempre. Mas não consegue apesar de sua tentativa em colaborar com a fragilidade do saco e com a gravidade que o impulsiona para baixo. Algo o resiste para que não caia, o que pode ser?!

Na verdade, sei... sabemos. Acredito que se trata Daquele que não quer nos ver cair na escuridão eterna, donde não poderemos sair visto que a queda é ininterrupta. Deus nos mantêm fixados neste muro entre a vida e morte para cicatrizarmos o espirito ferido pela situação que nos afundou na angústia e deixou-nos a deriva da vida humana. Isto não é fazer-nos sofrer desnecessariamente, como eu cheguei a pensar. Isto pelo contrário, é necessário para que vivamos no mais perfeito amor, pois Ele faz isto porque nos ama principalmente.

“Chorou por sua solidão, seu desamparo, pela crueldade do ser humano, a crueldade de Deus e sua ausência: 'Por que o Senhor fez isso comigo? Por que me fez chegar até esse ponto? Por quê? Porque torturar-me tão horrivelmente?'” (id. pg. 86)

Estas indagações de Ivan são as mais fáceis de se elaborar ante algum sofrimento. Senti esta inclinação fortemente, não posso negar e esconder. Hoje vejo com mais claridade que Ivan é a figura exemplar do homem moderno, que se vê sempre injustiçado diante da dor e do sofrimento, que tenta a todo custo encontrar um culpado para o que passa, que tenta esquivar-se da responsabilidade pela própria desventura.

“Crueldade de Deus”? Algo bem fácil de pensar, mas difícil de sustentar. Logo descobrimos – descobri! - que em realidade Ele é quem nos consola da nossa crueldade conosco. Deixando-nos o coração livre de influências tendenciosas, ideias fixadas pela conveniência nossa e alheia, conseguimos passar pela dor e sair dela fortalecidos, pois com o conforto Dele, saímos da inconsciência mantida pelo sofrimento para a consciência da realidade da pessoa humana e de sua fragilidade neste mundo.

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Veja também: A morte de Ivan Ilitch [slides]

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