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sábado, 10 de março de 2012

III Domingo da Quaresma

Ex 20,1-17 ICor 1,22-25 Jo 2,13-25

Pe. Valderi

Alcançamos o terceiro domingo da quaresma, e com ele nos aproximamos mais da celebração do Mistério Pascal de Cristo, nosso objetivo nesta preparação penitencial.

Deus nunca deixou de andar com seu povo, em meio a tantos pecados e ofensas do próprio povo eleito, sempre os amou e fazia-se ouvir com palavras orientadoras. Nesta leitura do livro do Êxodo, temos uma destas demonstrações de amou e zelo de Deus por seu povo, trata-se da entrega do decálogo, ou Dez Mandamentos da Lei de Deus. Primeiramente precisamos nos forçar a compreender que estes mandamentos não são sinais de pura obrigação, leis que poderiam restringir ou oprimir nossa liberdade. Trata-se antes, de puro zelo amoroso por cada homem e mulher, pois trata-se de orientações de como agir para alcançar a realização da própria natureza humana. Nada mais conveniente do que o criador desta natureza para saber o que nos é necessário para ser realizados e felizes vivendo neste mundo que é obra Sua.

Podemos até pensar que estes mandamentos foram entregues em determinado tempo histórico, ou seja, que hoje poderiam “ser diferentes” se adequando a vida contemporânea. Mas este pensamento é perigoso, pois pode nos levar a crer que a Palavra de Deus pode ser modificada, restaurada, readaptada. Isto é impossível uma vez que a Palavra de Deus é eterna e irrevogável, ou seja, nada que comunicou ao ser humano pode ser modificado mesmo passando milênios. Assim, cada mandamento que hoje escutamos nesta leitura do Antigo Testamento, é ATUAL e válida para nós hoje, neste tempo em que vivemos nosso estilo de vida. Pois, apesar de os costumes mudarem, as ideias se transformarem, a verdade sobre o ser humano e sobre o que lhe é necessário para a plena realização e felicidade – e consequentemente alcançar a vida eterna – não mudam, continuam sendo as mesmas desde os primeiros humanos.

Poderíamos destacar algum mandamento mais importante? De fato, todos se completam e todos são igualmente necessários e por isso importantes. No entanto, nestes dias atuais podemos dar mais ênfase a alguns deles que certamente não nos eximem de observar os demais.

Não terás outros deuses além de mim (v.3). Com palavras contemporâneas podemos dizer, não adotemos ídolos ou paixões desordenadas a coisas ou pessoas comuns. Vemos a idolatria doentia que muita gente tem por artistas ou até ideologias políticas, colocando estes como modelos para seu pensar e agir, transformando-os em verdadeiros deuses com poderes de orientar e dizer o que é certo ou errado. Deus somente tem essa capacidade de mostrar ao ser humano, a verdade das coisas, a verdade da vida, para orientar-nos de maneira certa para a finalidade que precisamos. Lembra de santificar o dia de sábado (v.8). O dia de sábado era santificado, pois se tratava do sétimo dia, onde Deus descansou da Expulsa vendilhões no Temploobra criada (Gn 1,2), e em conta disso santificou o sábado, pois todas as ações de Deus são santas. Com a encarnação de Cristo muito foi aperfeiçoado, e com isto também o dia santo, ou seja, em favor de Sua ressurreição o dia santificado passou ao Domingo (Dia do Senhor), que agora passa a ser o dia mais santo de todos, pois Deus realizou uma grande obra em favor do ser humano neste dia. Não matarás e Não levantarás falso testemunho (vv.13.16). Em realidade são dois mandamentos distintos mas que poderíamos colocá-los lado a lado, pois exigem de nós um esforço semelhante. Matar alguém pode ser realizado de muitas formas: destruindo sua dignidade, sua reputação, sua moral, ou mesmo agredindo verbalmente ou ideologicamente. Mas também podemos estar ferindo mortalmente alguém quando desdenhamos sua presença, ou nos dedicamos sistematicamente a ignorá-la. Levantar falso testemunho, ou simplesmente mentir sobre algo ou alguém, pode levar-me a matar ou ser já efeito de minha atitude “assassina”. O falso testemunho pode ser expressão de minha insegurança e minha debilidade ante as circunstâncias da vida. Pode ser também efeito do pecado da inveja, ou do orgulho e egoísmo. Não cometerás adultério (v.14). Este mandamento sempre será o mais controverso e atual, pois o ser humano tende sempre a ser fraco quando se lhe pede fidelidade plena e exclusiva. O adultério não se refere somente a relação homem-mulher e vice-versa, mas também a relação homem-Deus, ou seja, cada vez que agimos no escuro, tentando nos desviar do olhar de Deus para fazermos algo de que Ele não gostaria, estamos sendo-Lhe infiéis.

A ressurreição de Cristo é a plenitude da restauração da obra de Deus na terra. Algo impossível de crer para os judeus da época de Cristo e o podemos ver no evangelho deste domingo e nas palavras de Paulo (1Cor 1,23). Eles esperam sinais milagrosos (cf.ICor 1,22), e Cristo os conhecesse e sabe que sua fé esta somente baseada nestes fatos extraordinários. Por isso mesmo os desafia a destruírem o Templo para que Ele o reconstrua em três dias. Evidentemente Jesus falava do verdadeiro templo, Seu corpo que após a ressurreição estaria renovado, não outro, mas o mesmo só que agora glorificado. O templo que os judeus tanto prezavam era o mesmo Templo construído por Salomão (Cf.1Rs 6,1), mas a muito tempoCrucifixo em reparticao publica vinha se tornando casa de interesses humanos e não casa de oração. A revolta de Cristo (v.15) com certa violência nos faz perceber com o evangelista o quanto Deus também se encoleriza com a corrupção das coisas sagradas. Jesus nos mostra o quanto não devemos nos conformar ao ver aquilo que nos aproxima de Deus ser vilipendiado em favor de ideias e posturas humanas que muitas vezes somente degradam o próprio ser humano. Assim, como não nos conformamos em ver alguém tratando mal um inocente, também não devemos nos conformar em presenciar pessoas, mesmo que revestidas de autoridades humanas, manusear leis em prol de pequenos “destacáveis” excluindo as coisas sagradas de ambientes por onde passam muitos católicos tementes a Deus. De certa forma, também estes estão transformando as coisas de Deus em objeto de negócios e instrumento de interesses.

A partir desta reação de Cristo, fica também claro para nós onde Deus habita de forma mais completa. Nosso corpo é o templo por excelência de Deus, morada da Santíssima Trindade. Por este motivo, sou responsável por ele, devo ter o mesmo zelo de Jesus pelo meu corpo onde Ele habita, onde meu Pai habita. Muita gente nem se preocupa em fazer loucuras com o corpo, pensando simplesmente na liberdade que tem de fazer o que quiser com o que lhe pertence. Mas o fato é que se trato a Deus como alguém longe de mim, distante, pessoa que apenas visito em sua casa aos domingos, estarei transformando, ou perto de o fazer, meu próprio corpo em um lugar de negócios e pecados, tudo isso pensando estar exercendo minha liberdade, que na verdade nada mais será que libertinagem camuflada.

Somos templos vivos de Deus. O zelo por tua casa me consumirá (v.17; Sl 69,10), nestas palavras queremos manter em nós o cuidado necessário para que Deus nunca se aparte de nós. Neste tempo quaresmal é conveniente que tratemos deste tema em nossas orações, pois vimos a revolta de Jesus e não queremos ser tratados como foram aqueles do Templo pelo Cristo que desejamos esteja sempre presente em nós.

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