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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Mensagem para Quaresma: Pe. Valderi

Um sacrifício vivo, santo, agradável a Deus.

Estamos iniciando o tempo propício para uma profunda mudança de vida e também para revermos algumas atitudes que são típicas da vida cristã, mas que com o tempo parecem desbotar e perder a vida ante o cotidiano agitado e moderno em que estamos. Não que assim esteja aceitável, na verdade é justamente o contrário do que esperávamos que cada cristão vivesse. Diante deste mundo somos instigados a esquecer aquelas ações que fazem da vida cristã peculiar e as vezes motivo de escândalo (1Cor 1,23).

Nesta mensagem para a Quaresma pensei ser propício meditar sobre uma dimensão da piedade cristã que sempre foi muito valorizada pelos santos e que em nossas vidas hodiernas parece não se encaixar, algo que na verdade não procede visto que ainda é meio muito eficaz de trazer a dor de Cristo e por consequencia seu amor pelos homens mais profunda e puramente a nossos corações. Para isto cito esta passagem da carta de São Paulo aos Romanos que pode nos ajudar: rogo-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo, agradável a Deus.

ofereçais vossos corpos”

Ainda na época da cristandade européia se conta que por piedade muitos religiosos e também leigos inflingiam a seus corpos duríssimas penas, algo para que realmente sentissem a dor latente em seus corpos. Este método muito usado para a penitência não deixava de ter seu aspecto de busca pelo compadecimento de Cristo, ou seja, sentindo a dor no corpo poderiam sentir a dor de Cristo e assim amar com mais compreensão seu sacrifício pela humanidade. Apesar deste método de penitência e sacrifício corporal não estar abolido, sendo possível àlguem ainda fazer uso dele, não é mais uma prática comum entre os fiéis. Hoje substituimos essa prática, conforme nos orienta Paulo, e oferecemos nossos corpos sem a necessidade de os maltratar. Nosso corpo é a obra da criação e por isso um valioso dom que recebemos de Deus. Para oferecer algo valioso a Deus não encontramos nada mais adequado que ele, com toda a sua exuberância ou carregado de males.

Ainda muitos vêem o corpo como propriedade exclusivamente sua, produto pelo no qual podem agregar ou extirpar qualquer parte ou coisa. Esses fazem mal uso dele, pensando exercitar plenamente sua liberade, quando em realidade, fazem de seu corpo vítima muda de modismos e idéias falsamente baseadas na liberdade individual. Ainda mais triste é o que testemunhamos com nossos olhos incrédulos do extremo mais nefasto desta atitude, quando lamentamos o assassinato de milhões de inocentes no ventre materno. Sangue que brada aos Céus, derramado por sua grande maioria pelo motivo mais egoísta baseado no falso controle de seu próprio corpo. Esta chaga da sociedade moderna é efeito desta perda do sentido do corpo como dom recebido de Deus, não propriedade exclusiva. E mais ainda, a desdém desta pratica espiritual cristã em oferecer a Deus o corpo que tenho, criação Dele, no qual habito e que é meu bem mais valioso.

como um sacrificio vivo”

Na quaresma que iniciamos temos a oportunidade de retomar esta piedosa pratica cristã que muitos frutos pode trazer para este momento em preparação da Páscoa do Senhor como para a vida inteira. Oferecer ao Senhor um sacrifício torna-se mais acessível quando o fazemos pensando em nosso próprio corpo, realizando através dele aquele ato de aproximação das dores de Cristo. Analiticamente não parece a mesma coisa, mas as dores de tal sacrifico pode equivaler ao esforço realizado por Nosso Senhor no Horto das Oliveiras ou até mesmo no Gólgota. Um sacrifício corporal pode nos render muitas graças que talvez nem esperamos, mas o principal é que através dele podemos apresentar a Cristo nossa real conversão de coração, mostrando que verdadeiramente estou arrependido de meus pecados e pronto para comemorar Sua Páscoa.

Na prática esta modalidade de sacrifício pode ser uma abstenção alimentar ou de lazer como suportar algo que normalmente fugiríamos ou faríamos tudo ao alcance para evitar. Também coisas mais pequenas ainda como subir de escadas ao invés do elevador, andar a pé e deixar o automóvel ou sentar em cadeiras ao invés de poltronas e sofás. Isto tudo quando realizado com a intenção de sacrifício para o Senhor nos edifica o espírito deixando-nos cada vez mais agradavéis aos olhos de Deus. Também a dor ou incomodo que estes pequenos gestos que nos causam nos deixam sempre lembrar nossa fragilidade ante as situações comodas, de como somos facilmente levados para a facilidade e assim deixando ao lado o valor do esforço.

Também este sacrifício através de nosso corpo pode ser realizado pelos gestos de caridade, sempre atentos a tudo que normalmente não faríamos ou deixaríamos a outros como arrumar e dessarrumar uma mesa de refeição, se oferecer para carregar as compras da loja, limpar você mesmo seu quarto. Isto além de nos fazer mais caridosos e prestativos aos demais nos leva a procurar a imitação da caridade de Cristo, de quando abaixado lavou os pés dos apóstolos (cf. Jo 13,5).

“santo, agradável a Deus”

Na piedade cristã todos os gestos e orações devem ter por pressuposto a intenção santa deste ato, para que não se corra o risco de realizar uma obra de caridade, ou de sacrifício pensando como os fariseus (Lc 18,11) ou hipócritas (Mt 6,5), transformando este momento que poderia ser de sincera oferta a Deus em oferta a si mesmo, ou seja, de fato, buscando as “graças” do mundo e não de Deus. A reta intenção nas boas obras e também nas ofertas por penitência e conversão precisam ser bem cuidadas, pois facilmente se cai no “roteirismo” deixando que as orações e a própria liturgia soe como música repetida. Um sacrifício santo, com o coração retamente intencionado a Deus torna-se agradável a Ele.

Neste tempo que nos é oferecido poderemos nos aproximar mais das dores de Cristo para sentir com Ele o sacrífico de nossa redenção. Sejamos capazes de olhar para nós e ver aquilo que poderemos nesta quaresma oferecer a Deus como prova de nosso arrependimento e conversão.

Pe. Valderi da Silva

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