sábado, 25 de fevereiro de 2012

I Domingo da Quaresma

Gn 9,8-15 1Pd 3,18-22 Mc 1,12-15

Pe. Valderi

Hoje nos encontramos no primeiro domingo da quaresma, tempo que a Igreja nos oferece para reflexão, arrependimento, penitência e conversão. Mas além disso, tempo de renovar nossas boas ações como atos de piedosa caridade aos irmãos e isto expressamos de forma mais concreta neste tempo na doação de esmola e nas obras de caridade.

O amor do criador por suas criaturas é insondavelmente grande, algo que nem podemos imaginar. Este amor de Deus é capaz de reunir todos os nossos pecados, blasfêmias, injurias, imoralidades, desavenças e esquecê-las ao ver nosso coração arrependido e sincero. É o que vemos de modo sublime e definitivo para a história do povo de Israel e que ouvimos nesta primeira leitura, onde Deus, tendo mandado o dilúvio sobre a terra por conta da vida pecaminosa e afastada de Dele, olha com compaixão por aqueles que estavam na barca e que temiam a Deus e por isso sela uma promessa de nunca mais enviar algo tão devastador para varrer os homens da terra.

Eis que vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência, com todos os seres vivos que estão convosco (v.8). A aliança que Deus firma com seu povo não é quebrada por parte Dele, pois Ele não pode contradizer a palavra proferida por Ele mesmo, por isso, Sua palavra é irrevogável. O que acontece é que a outra parte da aliança, ou seja, nós os homens, as vezes não conseguimos nos manter fiéis, conduzindo nossa vida a outros caminhos distantes daquele fixado por Deus. Somos esta descendência de Noé e daqueles que estavam com ele na barca, temos o compromisso de honrar nossa parte nesta aliança. Ele não é infiel e já prometeu não enviar outro desastre como o dilúvio, mas ainda temos que ser fiel a esta aliança.

Assim, como em outros momentos da história do Antigo Testamento, Deus reafirma este contrato com o povo para lhes mostrar que Seu imenso amor é tão forte que não o deixa abandonar suas criaturas mesmo elas cometendo os mais nefastos pecados. Este atributo divino de fidelidade eterna a Sua aliança firmada, nos deve consolar e também nos mover a sermos também fiéis. Claro que não temos a força de Deus, algo que é impossível, mas Ele nos fortalece para que possamos vencer as tentações e seguir firmes em Sua palavra, vivendo fielmente Seus mandamentos. Isto é o que devemos suplicar a Deus neste tempo, que Ele nos fortifique para lutarmos contra as inúmeras e diversas tentações do mal que nos rodeiam neste mundo. Por nós mesmos sabemos que somos fracos diante de determinada situação ou coisa que pode nos fazer descumprir a Palavra de Deus, por isso ser tão necessário pedir a Ele força para vencer o pecado e permanecer fiel a sua Aliança conosco.

Por outro lado, também precisamos fazer nosso esforço pessoal para vencer as tentações, ou seja, não somente esperar que Deus me auxilie com Sua força mas que eu me comprometa a tomar certas atitudes que não me deixem cativar pelo pecado. Assim contamos com a graça de Deus e Ele com nosso esforço pessoal para alcançarmos o reto caminho.

Padre Royo Marín escreveu assim a este propósito:

Inumeráveis são as vantagens de vencer a tentação, com a graça e ajuda de Deus. Por que humilha Satanás; faz resplandecer a glória de Deus; purifica nossa alma, enchendo-nos de humildade, arrependimento e confiança no auxílio divino; obriga-nos a estarmos sempre vigilantes e alertas, a desconfiarmos de nós mesmos, esperando tudo de Deus, a mortificar nossos gostos e caprichos; aumenta nossa experiência e nos torna mais circunspectos e precavidos na luta contra nossos inimigos.

(ROYO MARÍN, O.P., Antonio. Nada te perturbe, nada te espante. 3 ed. Madrid: Palabra, 1982, p.56-57)

Isto para nos deixar claro que podemos contar com a graça e o auxílio de Deus, mas também precisamos realizar nosso esforço em nos manter afastados do pecado, principalmente neste tempo quaresmal onde buscamos purificação interior para nos preparar adequadamente para a Páscoa de Nosso Senhor.

A maior cena de investida do demônio para fazer o homem pecar e assim quebrar sua aliança com Deus é nos dada exatamente por Jesus. Diz o evangelista que o Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás (v.12).

“Nesse período, quis o Redentor contemplar o panorama completo da sua missão e como a santa Igreja haveria de manter os efeitos da Redenção até os últimos tempos, através dos Sacramentos”

(Mons. João Clã Dias EP. Revista Arautos do Evangelho. n.122, fevereiro de 2012. p.13)

Cristo quis passar por esta etapa antes de iniciar sua vida pública anunciando sua mensagem de salvação.

“Mostra-nos assim... que antes de lançar-se a [alguma atividade] é indispensável preparar-se pela oração e pela contemplação, pois a vida interior é a alma de toda a ação missionária [e também da vida cristã diária]”.

(Mons. João Clã Dias EP. Revista Arautos do Evangelho. n.122, fevereiro de 2012. p.13)

Não precisava, sendo Deus, se sujeitar as investidas do demônio para saber a influência que o mal exerce sobre o homem, mas queria esta experiência para mostrar aos homens que a tentação pode ser vencida com a oração e o sacrifícioJesus no deserto 2 pessoal. Diz Mateus que Ele jejuou durante quarenta dias e quarenta noites (4,2), ou seja, não somente orou mas também ofereceu um sacrifício no corpo para que também pudesse mostrar que as necessidades corporais não são reguladoras do homem, isto é, não podemos deixar que estas necessidades, sejam da ordem que for, comandem nossas atitudes. 

Saindo destes dias no deserto, Jesus passa a anunciar o Evangelho. Após quarenta dias de preparação Cristo se lança a comunicar aos homens e mulheres que o tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo (v.15a). Com a vinda de Cristo a plenitude dos tempos chegou e a hora da salvação se completou. Não temos mais que esperar como os judeus que aguardavam a vinda do Messias para sua libertação, pois o Salvador está entre nós, chegou o tempo e este não é prolongado, ou seja, não podemos esperar, é agora o momento da salvação, o momento de nosso arrependimento, de nossa conversão, de nossa mudança de vida. Convertei-vos e crede no Evangelho! (.v15b). Estas são as palavras com que Cristo abre este tempo de preparação quaresmal.

Nosso desejo de mudança de vida deve estar cheio de confiança em Deus, Ele conquistou através de Seu Sacrifico na Cruz as graças necessárias para nossa salvação e fez de Sua Igreja a dispensadora dessas graças. Vivamos este tempo com este empenho de mudança e com a confiança de que através da vivência dos sacramentos podemos viver a Páscoa de Cristo com a atitude de corpo e alma em conformidade com a vontade de Deus.

Assim seja.

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