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domingo, 18 de julho de 2010

Entrevista com o arcebispo Samir Nassar

DAMASCO, domingo, 18 de julho de 2010 (ZENIT.org) – Ainda que o cristianismo em Damasco tenha suas raízes nos tempos anteriores a São Paulo, a pequena comunidade atual luta por sobreviver.

Precisamente porque a Igreja é uma minoria em terra muçulmana, cada cristão sai da pauta cultural, explica o arcebispo Samir Nassar, de Damasco. O prelado, que cumpriu 60 anos em 5 de julho, serve a Igreja local desde 2006.

Nesta entrevista, ele fala das dificuldades enfrentadas pela Igreja, mas também das razões para a esperança.

[reprozudo apenas algumas perguntas e respostas, na íntegra aqui]

Damasco, onde o senhor é arcebispo, é uma cidade que está no coração do cristianismo, onde São Paulo perdeu a vista e a recuperou novamente. Poderia nos falar da situação atual dos cristãos em Damasco?

Dom Nassar: A Síria é um país cristão muito antigo. Nela, há 33 mil igrejas. A Síria era predominantemente cristã e ainda temos muitos lugares cristãos famosos. Temos muitas igrejas cristãs que ainda estão vivas. Os cristãos no país não são convidados; têm suas raízes e viveram ao lado dos muçulmanos desde o século VII.

O cristianismo, no entanto, estava profundamente enraizado na Síria antes do Islã. Sim, antes de São Paulo, porque São Paulo foi batizado e foi capaz recobrar a vista em Damasco, o que significa que o cristianismo existia aqui antes de São Paulo.

Voltemos à Síria. Que porcentagem da população da Síria é cristã?

Dom Nassar: Oficialmente, somos cerca de 8%. Alguns dizem que não passamos de 5%. Somos uma minoria. Isso seria mais ou menos um milhão de pessoas, em uma população de 21 milhões.

Que outras tradições religiosas existem na Síria, além do cristianismo?

Dom Nassar: Temos o islã sunita – ou islã ortodoxo –, que representa quase 80%. Também existe o islã chamado alauíta, cerca de 10% [os alauítas são o grupo religioso minoritário mais importante da Síria e se consideram como uma seita do islã xiita. Os alauítas se distinguem da seita religiosa dos alevitas turcos, ainda que compartilhem uma origem comum, N. da R.]. Os demais são cristãos.

Uma criança cristã frequenta uma escola local, que é de maioria muçulmana; lá, as crianças cristãs aprendem o Alcorão e o Islã. Elas se tornam muçulmanas?

Dom Nassar: Pouco a pouco, vão se familiarizando mais com o Alcorão e com Maomé que com Jesus Cristo. Nós lhe damos uma hora de catequese e, para isso, temos de enviar um ônibus ou um carro para trazer as crianças e depois levá-las de volta. Algumas vezes elas vêm, outras vezes não, e uma hora de catequese não é suficiente. Então, tentamos encontrar a forma de conservar a nossa Igreja viva nesta terra da Bíblia.

Se uma moça deseja se casar com um muçulmano, ela tem de se converter?

Dom Nassar: Sim, é um problema. E se um cristão quiser se casar com uma muçulmana, também tem de se converter. Esta é uma lei muito antiga e não pode ser mudada. Ninguém obriga esse homem a se casar com uma moça muçulmana, mas 95% das moças são muçulmanas, apenas 5% são cristãs; há mais opções do lado dos 95%, então, quando se casam, também perdemos nossa gente.

E quanto à questão da conversão? Há muçulmanos que vão às igrejas católicas maronitas, interessados em converter-se? Como o senhor responderia a este tema da conversão, sendo que no Islã a conversão é castigada com a morte?

Dom Nassar: Isso é fanatismo, mas muitos muçulmanos vêm à nossa igreja; aprendem o catecismo, acompanham nossos encontros, mas não podem ser batizados. Se quiserem, podem ser cristãos no seu coração, mas não podem mostrar isso.

Então são... cristãos escondidos?

Dom Nassar: Não podem mostrar, mas nós os recebemos de coração aberto e alguns vêm à Missa diariamente, aos estudos da Bíblia e à catequese. Vêm, mas para os de fora, eles têm de permanecer sendo muçulmanos.

O senhor tem esperança na Igreja?

Dom Nassar: Tenho que ter. Somos a Igreja da esperança. Não podemos ser pessimistas; esta é a nossa fé para nos convertermos em mártires. Vi alguns iraquianos cristãos que são felizes, apesar da perseguição. Jesus Cristo, depois de tudo, foi um refugiado, um mártir, e me dá a força na minha fé neste mundo; e é belíssimo demonstrar quão importante é para nós permanecer aqui.

Esta entrevista foi realizada por Marie-Pauline Meyer para "Onde Deus Chora", um programa rádio-televisivo semanal produzido por Catholic Radio and Television Network (CRTN), em colaboração com a organização católica Ajuda à Igreja que Sofre.

Mais informação em www.aisbrasil.org.br, www.fundacao-ais.pt.

Um comentário:

Sou Católico! disse...

Poucas vezes me senti impelido a evangelizar. Uma delas foi ao ler esta entrevista de Dom Samir.