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domingo, 23 de maio de 2010

Viajando o mundo através de histórias

O gosto e a língua
Um mestre zen descansava com seu discípulo. A certa altura, tirou um melão do seu alforje, dividiu-o em dois, e ambos começaram a comê-lo. No meio da refeição, o discípulo comentou:
- Meu sábio mestre, sei que tudo que o senhor faz tem um sentido. Dividir este melão comigo talvez seja um sinal de que tem algo a me ensinar.
O mestre continuou a comer em silêncio.
- Pelo seu silêncio, entendo a pergunta oculta - insistiu o discípulo. - E deve ser a seguinte: o gosto que estou experimentando ao comer esta deliciosa fruta está em que lugar: no melão ou na minha língua?
O mestre não disse nada. paulo coelho
O discípulo prosseguiu:
- E como tudo na vida tem um sentido, eu penso que estou perto da resposta: o gosto é um ato de amor e interdependência entre os dois, porque sem o melão não haveria um objeto de prazer, e sem a língua...
- Basta! - disse o mestre. -
Os mais tolos são aqueles que se julgam os mais inteligentes, e buscam uma interpretação para tudo! O melão é gostoso, isto é suficiente. Deixe-me comê-lo em paz!
Riokan e o ladrão
Ryokan era incapaz de fazer acusações. Embora fosse um grande mestre do zen budismo, jamais se julgou melhor que os outros. Um de seus discípulos pediu que conversasse com o irmão salteador, que aterrorizava a cidade. Ryokan foi até a casa do bandido, e passou a noite inteira com ele. Não trocaram uma só palavra. De manhã, o salteador ajudou Ryokan a atar suas sandálias. Ao fazer isto, as lágrimas do homem começaram a lavar seus pés.
- Nunca tive a companhia de um sábio - disse, entre soluços.
- Só de outros salteadores como eu, ou de policiais interessados em me condenar. Se Ryokan passou uma noite comigo, é porque ainda valho alguma coisa.
E a partir deste dia, este homem nunca mais cometeu um crime.
El Greco e a luz
Numa agradável tarde de primavera, um amigo foi visitar o pintor El Greco. Para sua surpresa, encontrou-o em seu atelier, com todas as cortinas fechadas.
Greco trabalhava num quadro que tinha como tema central a Virgem Maria, usando apenas uma vela para iluminar o ambiente. Surpreso, o amigo comentou:
- Sempre ouvi dizer que os pintores gostam do sol para escolher direito as cores que vão usar. Por que não abre as cortinas?
- Agora não. Perturbaria o fogo brilhante da inspiração que está incendiando minha alma, e enchendo de luz tudo a minha volta.

Um comentário:

Anônimo disse...

Interessantíssimo o conto sobre este grande pintor, El Greco... seria verdade?! O fato é que pessoas sensivéis a arte tem mais chances de serem tocadas pela inspiração divina...