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Rua marginal

O sol cintila ao despontar do dia. Realmente a aurora tem um ar diferente daquele respirado ao longo do dia. Os primeiros raios de sol fazem bem até para a pele, dizem alguns expertos no assunto de dermatologia.
Mas este dia maravilhoso logo me fez recordar, ou melhor, voltar a realidade de minha existência pouco favorável, diria para amenizar! Logo olhei para os lados e vi meu papelão onde uma vez continha uma bela geladeira que fazia vezes de colchão para que pudesse deitar meu corpo já diferente dos tempos de outrora, era dessas modernas que até solta cubinhos de gelo por uma fenda na porta. Ali estavam também minha lata que era depósito de um gostoso extrato de tomates, uma dessas latas grandes para restaurantes ou hotéis, mesmo assim, enferrujada e usada, mas limpa, a tinha como meu precioso porta bugigangas  Não poderia esquecer de meu inseparável carrinho de mercado. Ah! Se não fosse ele! Quanta coisa cabia naquele carrinho, era realmente minha salvação quando se tratava de transportar meus valiosos pertences. Mas algo nessas coisas me pareciam desajustadas, não sei dizer direito, mas tudo era tão material.

Não me defino como um mendigo ou sem teto, mas como cidadão livre. Mas atualmente tenho  colocado em xeque este conceito de mim mesmo.

Conheci uma vez um senhor muito distinto, não perecia ter muitas posses mas exalava um perfume de nobreza de liberdade. Comecei a conversar com ele, já que ele estava sentado esperando um táxi que já tinha avisado que ia demorar para chegar devido ao trânsito meio engarrafado. Perguntei sobre ele e seus afazeres e me destrinchou sem nenhuma reserva sua vida. Era secretário de um advogado no centro da cidade, morava sozinho e gostava bastante de ler literatura histórica principalmente. Sem filhos, sem esposa, sem namorada, gostava de apenas viver, sozinho nos seus 32 anos.

Então começou ele a me interrogar a respeito de minha vida e descobri que havia muita coisa que contar. Comecei a pensar que esta deveria ter sido a primeira pessoa que me pediu para contar de minha vida. Comecei a chorar. Naquele instante descobri que realmente não seria cidadão como me conceituava se ainda me apegasse a minha vida. Descobri que a vida para ser realmente realizada deve doar o que têm, o viver. Abracei aquele homem sem lhe contar nada de minha vida, mas creio que ele percebeu que tinha despertado em mim algo que eu não sabia.

Aquele dia que amanhecia era o último abraçado ao carrinho, ao papelão e a lata de bugigangas.

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