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domingo, 7 de junho de 2009

Os feiticeiros mexicanos e seu mundo

A grande maioria das tradições espirituais existentes nas Américas, antes da chegada de Colombo, tem conseguido preservar suas raízes. Dentre elas, o xamanismo mexicano - ainda praticado por muitas tribos locais - é uma das mais estudadas. Diversos antropólogos fizeram vários estudos sobre a maneira como os feiticeiros entendiam a presença de Deus e a busca espiritual. A seguir, alguns dos aspectos desta compreensão do universo, retirados de diversas fontes:
1) A ausência de história pessoal: Segundo a tradição, um homem ou uma mulher, presos ao seu passado, deixam governar-se pela maneira de pensar de seus pais, ou pela sociedade em que vivem. Por isso, todo iniciado escolhe um novo nome, e procura se livrar de suas lembranças, boas ou más. 2) O processo de esquecimento: para poder abandonar a história que viveu, o feiticeiro passa meses seguidos recordando, nos menores detalhes, cada um dos eventos de sua vida. Algumas tradições pedem que ele fique horas a fio contando em voz alta, para um copo cheio de água, tudo que aconteceu em cada encontro com cada pessoa. Assim, a experiência sai da memória e vai para a água - que em seguida é atirada ao rio. Desta maneira, a cabeça fica "vazia", e pode começar a ser preenchida por novas coisas. 3) O silêncio interior: uma vez livre de pensamentos antigos, o feiticeiro concentra-se no silêncio interior, e espera que os espíritos comecem a contar a verdadeira história do Universo. Este silêncio, junto com a ausência de lembranças passadas, permite a liberdade total para entender um novo mundo. 4) A teia: quando começa a entender seu novo universo, ele entra numa espécie de transe, e "vê" que tudo à nossa volta é uma gigantesca teia de filamentos luminosos, totalmente interligados - ou seja, tudo é uma coisa só, partindo da mesma energia. Carlos Castañeda explica bem esta visão em seu livro Uma estranha realidade. 5) O encontro com o poder: olhando o seu próprio "ovo de luz", o feiticeiro nota um ponto que deve atrair os filamentos luminosos capazes de conduzir a energia do poder. Esta energia, embora possa ser usada pelo feiticeiro, não pode ser manipulada - ele tem que saber conduzi-la suavemente ao seu aprendizado. Esta manobra é o trabalho mais difícil da iniciação, e exige silêncio, meditação, e perseverança. 6) A energia negativa: alguns destes fios de luz conduzem fluidos destruidores, emitidos por outros feiticeiros, que não buscam o conhecimento, mas o controle da alma dos outros. 7) O "acomodador": existe sempre um evento em nossas vidas que é responsável pelo fato de termos parado de progredir. Um trauma, uma derrota especialmente amarga ou uma desilusão amorosa, termina fazendo com que nos acovardemos e não sigamos adiante. O xamã, no processo de esquecimento de sua história pessoal, precisa primeiro livrar-se deste "ponto acomodador". Para os feiticeiros mexicanos (e, curiosamente, também para algumas correntes budistas) a morte entra pela região próxima ao umbigo. Neste momento, o "ovo de luz" se desfaz, e os filamentos que estavam ali concentrados se misturam com a energia do universo, até se reagruparem de novo sob uma forma diferente.paulo@paulocoelho.com.br

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