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domingo, 22 de julho de 2007

Trocando sons por cores

- Vamos parar um pouco. Não agüento esta cor laranja!

Onde está a cor de laranja? Estamos no Trastevere, em Roma, e tudo que vejo são os bares, as pessoas na rua neste começo de primavera gelado, e os sinos da igreja tocando. Já é quase noite de um dia nublado, de modo que sequer podemos culpar o sol pela ilusão de ótica.

Caminho com uma atriz que conheço já há algum tempo, mas que nunca antes tivemos oportunidade de conversar o suficiente. Paro como pediu, mas apenas por educação, já que aquela mulher equilibrada, profissional, deve ser mais louca do que eu pensava.

Entramos em um restaurante para jantar. Pedimos risoto com trufas, e um bom vinho. Conversamos sobre a vida, e de novo um comentário absurdo:

- Esta comida está retangular!

Ela nota minha cara de espanto. Comida retangular?

- Você deve achar que estou louca; não estou. Houve um momento de minha vida em que pensei que era daltônica (pessoa que confunde uma cor com outra). Fui ao médico, e descobri que tenho um distúrbio neurológico comum.

Depois que voltei para casa e imediatamente comecei a pesquisar no computador, fiquei surpreso com algo que jamais tinha ouvido falar em minha vida: sinestesia. Uma condição em que um estímulo de determinado sentido provoca a percepção em outro. A pessoa que sofre desse tipo de distúrbio confunde sons com cheiros, visão com paladar, cores com tato (não necessariamente nesta lógica).

Alguns estudos científicos alegam que a visão de auras em seres humanos nasceu daí; discordo desses estudos, penso que todos nós temos realmente um corpo astral que pode ser visto quando alteramos a percepção. Mas o que mais me atraiu na pesquisa foi saber que o que percebemos através de nossos cinco sentidos não é uma verdade absoluta. As pessoas sinestésicas têm uma noção do mundo completamente distinta da nossa, embora isso não os impeça de levarem uma vida relativamente normal. Minha amiga atriz trabalha na TV italiana todos os dias, e diz que terminou por se acostumar.

Indo mais adiante na pesquisa, descobri um estudo na revista britânica Cognitive Neuropsychology. Uma equipe de pesquisadores do University College de Londres, chefiada pelo dr. Jamie Ward, foi mais além: alguns sinestésicos podem perceber cores em palavras carregadas de emoção, como “amor” ou “filho”. A grande maioria deles termina associando o nome de alguém a determinada tonalidade. Ward descreve o caso de uma moça identificada por G.W., que simplesmente pelo fato de escutar determinados nomes tinha seu campo de visão inteiramente coberto por determinada cor associada àquela palavra.

Em uma revista de arte, aprendo que as auréolas que vemos em torno das cabeças dos santos podem ter sido criadas por algum pintor sinestésico na antigüidade, sendo repetidas pelos outros sem que ninguém se perguntasse a razão daquele círculo de luz. O prêmio Nobel de Física de 1965, certa vez disse em uma entrevista: “quando escrevo equações no quadro-negro, noto os números e as letras em cores diferentes”. Diz um artigo que Feynman faz parte de um grupo de pessoas para quem o número dois pode ser amarelo, a palavra carro tem gosto de geléia de morango, e certa nota musical evoca a imagem do círculo.

Ward diz que a sinestesia não é absolutamente uma doença: “Ao contrário dos transtornos psiquiátricos, o sinestésico não tem nenhuma função básica comprometida, e sim um sintoma positivo, ausente na maioria dos outros seres humanos”. O grande problema está em crianças em idade escolar, que não conseguem entender por que sentem as coisas de maneira diferente dos outros.

Para minha grande surpresa, alguns estudos apontam que uma em cada 300 pessoas é sinestésica (embora a maioria diga que a relação é de uma em 2.000).

No dia seguinte telefonei para a minha amiga e perguntei que sensação ela sempre associava comigo. “Suave” foi sua resposta.

Bem, nem sempre a sinestesia tem lógica.

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