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domingo, 15 de julho de 2007

Fragmentos de um diário inexistente

Hakone, Japão

Consigo que meu editor, Masao Masuda, finalmente me convide para a tradicional cerimônia do chá. Vamos para uma montanha perto de Hakone, entramos num pequeno quarto, e sua irmã, vestida ritualmente em quimono, nos serve chá.

Só isso. Entretanto, tudo é feito com tanta seriedade e protocolo, que uma prática cotidiana transforma-se num momento de comunhão com o Universo.

O mestre do chá, Okakusa Kasuko, explica o que acontece: “A cerimônia é a adoração do belo. Todo seu esforço concentra-se na tentativa de atingir o perfeito através dos gestos imperfeitos da vida cotidiana. Toda a sua beleza consiste em respeitar as coisas simples que fazemos, pois elas podem nos transportar até Deus”.

Copacabana, Rio de Janeiro

Estou andando pelo calçadão, e escuto uma moça dizendo para a outra, de maneira convicta: “Eu programei minha vida da seguinte maneira...”

Fiquei pensando: será que ela conta com as coisas que aparecem justamente quando não estamos esperando? Pensou que Deus talvez tenha um plano diferente, e muito mais interessante? Levou a sério a hipótese de que - ao incluir outras pessoas na sua programação - esteja interferindo em idéias e projetos distintos?

Não sei se a frase que escutei era fruto da inexperiência ou do delírio total.

Melbourne, Austrália

Piso no palco com a apreensão de sempre. Um escritor local, John Felton, me apresenta e começa a me fazer perguntas. Antes que eu possa terminar um raciocínio, ele me interrompe e faz uma nova pergunta. Quando respondo, comenta algo como “esta resposta não foi bem clara”. Cinco minutos depois, nota-se um mal-estar na platéia. Lembro-me de Confúcio, e faço a única coisa possível:

- Você gosta do que eu escrevo? pergunto.

- Isso não vem ao caso, responde. Sou eu a entrevistá-lo, e não o contrário.

- Vem ao caso, sim. Você não me deixa concluir uma idéia. Confúcio disse: “Sempre que possível, seja claro”. Vamos seguir este conselho e deixar as coisas claras: você gosta do que escrevo?

- Não, não gosto. Só li dois livros, e detestei.

- OK, então podemos continuar.

Os campos agora estavam definidos. A platéia relaxa, o ambiente enche-se de eletricidade, a entrevista vira um verdadeiro debate, e todos inclusive Felton ficam satisfeitos com o resultado.

No avião de Melbourne para Los Angeles

Recorto da revista de bordo o trecho atribuído a Loren Eisley:

“A viagem é difícil, longa, às vezes impossível. Mesmo assim, conheço poucas pessoas que se deixaram deter por essas dificuldades. Entramos no mundo sem saber direito o que aconteceu no passado, quais as conseqüências que isso nos trouxe, e o que pode nos reservar o futuro”.

“Procuraremos viajar o mais longe que pudermos. Mas, olhando a paisagem a nossa volta, sabemos que não será possível conhecer e aprender tudo”.

“Então, nos resta lembrar tudo sobre a nossa viagem, para que possamos contar histórias. Aos nossos filhos e netos, vamos relatar as maravilhas que vimos e os perigos que corremos. Eles também nascerão e morrerão, contarão suas histórias aos seus descendentes, e a caravana ainda não terá chegado ao seu destino”.

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