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domingo, 18 de março de 2007

A carta que não posso responder

A carta que não posso responder está agora sobre a minha mesa. Chegou às minhas mãos por causa de um esforço de um casal de holandeses que me enviou uma correspondência eletrônica em junho de 2006. Eu não dei importância e não retornei. Tornaram a insistir no final do mesmo mês, e eu tampouco dei atenção. Até que veio a advertência em palavras mais sérias:

“Esta é a última vez que pedimos este favor. Fica a seu critério escrever ou não para Justin. Melhor dizendo, fica a critério da sua consciência. Conheci seus livros justamente por recomendação dele. Atenciosamente, Jacobus (omito o sobrenome).”

Li com cuidado o texto do e-mail: ali dizia que Justin Fuller, prisioneiro #999266 da Unidade Polunsky, Livingston, Texas, será executado exatamente no dia do meu aniversário: 24 de agosto. O advogado, Don Bailey, já foi a todas as instâncias, e pelo visto a causa está perdida. Não estão me pedindo que vá a público denunciar o fato, ou que tome posição a respeito: querem apenas que envie algumas palavras de conforto a este leitor.

Digito o nome de Justin em um mecanismo de busca. Vejo sua foto, descubro que há uma página com os nomes de todos que estão (ou estavam) no corredor da morte no Texas. Vejo sua ficha criminal.

Escrevo a carta. Na semana seguinte ao meu aniversário, Jacobus me escreve mais uma vez: Justin a recebeu, e me respondeu antes de ser executado. A carta está me esperando em um hotel que costumo ficar em determinada cidade, e que dei como endereço de remetente.

Finalmente, no final de outubro de 2006, passo pelo hotel. Sei que tem uma carta de um condenado a morte que me espera. Sei que ele já foi executado. Recolho a carta, paro em um bar e leio as palavras de alguém a quem nunca mais poderei responder. A quem tampouco posso pedir permissão para publicar trechos, mas como estamos discutindo uma verdadeira aberração da justiça - a morte como instrumento do Estado - transcrevo aqui algumas partes:

“Caro Sr. Coelho:

O corredor da morte é a arena onde as políticas de poder, retribuição, e violência são aplicadas a um homem, usando (materiais como) concreto e aço. Até que este homem se transforma em aço, e seu coração passa a ser tão duro como o concreto. Entretanto, embora o aço possa ser duro, ainda é capaz de ser flexível, e embora o coração tenha se transformado em concreto, ainda é capaz de bater. Além (do concreto e aço) resta o homem, seu amor pela vida e os grandes princípios que regem o ser humano.”

“Sua carta me deixou surpreso. E é muito estranho que minha transcendência (Justin sempre usa este termo, ao invés de ‘execução’) possa acontecer justamente no dia do seu aniversário. Claro que espero que isso não ocorra, mas nós dois sabemos que com a vida sempre vem a morte. Nos EUA, executam prisioneiros em nome do que chamam de “justiça”, sem levar em conta a capacidade de serem bem representados nos tribunais, as condições de nascimento e o ambiente familiar.”

“Enquanto espero o último apelo à Corte Suprema, me encontro cheio de vida, forte, e com meu espírito inteiramente livre.”

“Se eu transcender, poderei finalmente flutuar no vento e desfrutar a liberdade. Pude entender que embora meu corpo esteja preso, a minha vida mudou e a minha alma ainda pode amar, já que toda liberdade é mental. Existe muita gente neste mundo que, embora esteja do lado de fora da prisão, encontra-se muito mais presa do que eu.”

“Só quando estas pessoas entenderem que a liberdade é um estado da mente, é que elas poderão realmente desfrutá-la.”

A carta que eu não pude responder é bem mais longa, descreve a relação que estabelecemos através dos meus livros. Deseja tudo que há de melhor para mim e para a minha família. E agora, repousa na minha mesa.

A carta que eu não pude responder, de um condenado à morte, preso quando tinha 19 anos, executado quando tinha 27 anos de idade, não contem palavras de lamento: fala de liberdade e vida.

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