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domingo, 25 de março de 2007

Aprendendo com as coisas simples

No Bragavad-Gita, o guerreiro Arjuna pergunta ao Senhor Iluminado:

“Quem és?”

Ao invés de responder “sou isso”, Khrisna começa a falar das pequenas e grandes coisas do mundo - e dizer que ele está ali. Arjuna passa a ver a face de Deus em tudo que o cerca.

Entretanto, embora criados à imagem e semelhança do Altíssimo, passamos a vida inteira tentando nos fechar num bloco de coerências, certezas, opiniões. Não entendemos que estamos nas flores, nas montanhas, nas coisas que vemos em nosso caminho diário até o trabalho. Raramente pensamos que viemos de um mistério - o nascimento - e caminhamos para outro mistério - a morte.

Se refletirmos sobre isso, se entendermos que a presença Divina e a sabedoria universal estão em tudo que nos cerca, teremos muito mais liberdade em nossas ações. A seguir, algumas histórias a respeito:

O filósofo e o barqueiro

A tradição sufi conta a história de um filósofo que cruzava um rio em um barco. Durante a travessia, procurava mostrar sua sabedoria ao barqueiro.

- Você não sabe a grande contribuição que Shopenhauer legou à humanidade?

- Não - respondeu o barqueiro. - Mas conheço Deus, o rio, e a sabedoria simples do meu povo.

- Pois saiba que perdeu metade de sua vida!

No meio do rio, o barco bateu numa pedras, e naufragou. O barqueiro nadava para uma das margens quando viu o filósofo se afogando.

- Não sei nadar! - gritava desesperado. - Eu lhe disse que havia perdido metade de sua vida por não conhecer Shopenhauer, e agora perco a minha vida inteira por não saber algo tão simples!

Shopenhauer,

enquanto isso...

O filósofo alemão Shopenhauer (1788-1860) caminhava por uma rua de Dresden, procurando respostas para questões que o angustiavam. De repente, viu um jardim, e resolveu ficar horas seguidas contemplando as flores.

Um dos vizinhos notou o comportamento estranho daquele homem, e foi procurar um policial. Minutos depois, um policial se aproximou.

- Quem é o senhor? - perguntou o policial, com voz dura.

Shopenhauer olhou de alto a baixo o homem a sua frente.

- É isso que estou querendo saber enquanto olho as flores. Se o senhor souber responder esta pergunta, eu lhe serei eternamente grato.

E enquanto caminha...

Enquanto passeava por um campo, um homem viu um espantalho.

- Deves estar cansado de permanecer aí, neste campo solitário, sem nada para fazer comentou.

O espantalho respondeu:

- O prazer de afastar o perigo é muito grande, e eu jamais me canso de fazer isto.

- Sim, eu também tenho agido desta maneira, com bons resultados, concordou o homem.

- Mas só vive espantando as coisas aqueles que estão cheios de palha por dentro, disse o espantalho.

O homem demorou uns anos para entender a resposta: o que tem carne e sangue em seu corpo precisa aceitar algumas coisas que não estava esperando. Mas quem não tem nada dentro, vive afastando tudo que se aproxima - e nem mesmo as bênçãos de Deus conseguem chegar perto.

paulocoelho@paulocoelho.com.br
www.paulocoelhoblog.com/bruxadeportobello

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