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domingo, 7 de janeiro de 2007

Conversas com crianças

O que é traição?

O profeta caminhava pela rua, perguntando: “Não somos todos filhos do mesmo Pai Eterno?”.

A multidão concordava. E o profeta continuava: “E se é assim, por que traímos nosso irmão?”.

Um garoto que assistia, perguntou ao pai: “O que é trair?”.

“É enganar o seu companheiro para conseguir determida vantagem.”

“E por que traímos nosso companheiro?”, insistiu o garoto.

“Porque no passado alguém começou isso. Desde então, ninguém sabe como parar a roda. Estamos sempre traindo ou sendo traídos.”

“Então não trairei ninguém”, disse o garoto.

E assim fez. Cresceu, apanhou muito da vida, mas manteve sua promessa.

Seus filhos sofreram menos e apanharam menos.

Seus netos nada sofreram.

Sobre o ciúme

Quando tinha onze anos, Anita foi reclamar com a mãe. “Não consigo ter amigas. Como sou muito ciumenta, elas se afastam.”

A mãe estava cuidando de pintinhos recém-nascidos, e Anita pegou um deles, que logo tentou fugir. Quanto mais a menina apertava-o na mão, mais o pintinho se debatia.

A mãe comentou: “Experimente pegá-lo com suavidade”.

Anita obedeceu. Abriu as mãos, e o pintinho parou de se debater. Começou a afagá-lo, e ele aninhou-se entre seus dedos.

“Os seres humanos também são assim”, disse a mãe. “Se você quer prendê-los de qualquer jeito, eles escapam. Mas se for doce com eles, irão permanecer sempre ao seu lado.”

As três coisas

Chen Ziqin perguntou ao filho de Confúcio: “Teu pai te ensina algo que não sabemos?”.

O outro respondeu: “Não”. Uma vez, quando eu estava sozinho, ele perguntou se eu lia poesias. Respondi que não, e ele mandou que lesse algumas, porque abrem na alma o caminho da inspiração divina.”

“Outra vez ele me perguntou se eu praticava os rituais de adoração de Deus. Respondi que não, e ele mandou fazer isto, pois o ato de adorar faria com que entendesse a mim mesmo. Mas nunca ficou me vigiando para ver se eu o obedecia.”

Quando Chen Ziqin retirou-se, disse para si mesmo:

“Fiz uma pergunta, e obtive três respostas. Aprendi algo sobre as poesias. Aprendi algo sobre os rituais de adoração. E aprendi que um homem honesto nunca fica vigiando a honestidade dos outros”.

Em busca da chuva

Depois de quatro anos de seca na pequenina aldeia, o pároco reuniu todos para uma peregrinação até a montanha; ali fariam uma prece coletiva, pedindo a chuva de volta.

No grupo, o padre notou um garoto, agasalhado e coberto por uma capa de chuva.

“Você enlouqueceu?”, perguntou. “Nesta região não chove há cinco anos, e a subida vai lhe matar de calor!”

“Estou resfriado, padre. Se vamos pedir a Deus que chova, já imaginou a volta da montanha? Vai ser tal a enxurrada que preciso estar preparado.”

Neste momento, ouviu-se um grande estrondo no céu e as primeiras gotas começaram a cair. Bastou a fé de um menino para realizar um milagre esperado por milhares de homens.

paulocoelho@paulocoelho.com.br
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