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terça-feira, 5 de abril de 2005

As duas gotas de óleo

Às vezes o guerreiro da luz tem a impressão de viver duas vidas ao mesmo tempo. Em uma delas, é obrigado a fazer tudo que não quer, lutar por idéias nas quais não acredita. Mas existe uma outra vida, e ele a descobre em seus sonhos, leituras, encontros com gente que pensa como ele.

Entretanto, se ele for mais atento, perceberá que a sua vida é uma só: tudo que precisa fazer é deixar que seus sonhos tomem conta de seu cotidiano, e que a disciplina de seus passos ajudem-no a conseguir o que sonha. Porque todos nós precisamos saber equilibrar Rigor e Misericórdia, como mostra esta antiga lenda:

Certo mercador enviou seu filho para aprender o Segredo da Felicidade com o mais sábio de todos os homens. O rapaz andou durante quarenta dias pelo deserto, até chegar a um belo castelo, no alto de uma montanha: lá vivia o Sábio que o rapaz buscava.

Ao invés de encontrar um homem santo, porém, nosso herói entrou numa sala cheia de gente, onde muitas atividades aconteciam ao mesmo tempo: mercadores entravam e saíam, pessoas conversavam pelos cantos, uma pequena orquestra tocava melodias suaves, e havia uma farta mesa com os mais deliciosos pratos daquela região do mundo.

O Sábio conversava com todos, e o rapaz teve que esperar duas horas até chegar sua vez de ser atendido.

O Sábio ouviu atentamente o motivo da visita do rapaz, mas disse que naquele momento não tinha tempo de explicar-lhe o Segredo da Felicidade. Sugeriu que desse um passeio por seu palácio, e voltasse daqui a duas horas.

“Entretanto, quero lhe pedir um favor”- solicitou o Sábio, entregando ao rapaz uma colher de chá, onde pingou duas gotas de óleo.

“Enquanto você estiver caminhando, carregue esta colher sem deixar que o óleo seja derramado.”

O rapaz começou a subir e descer as escadarias do palácio, mantendo sempre os olhos fixos na colher.

Ao final de duas horas, retornou à presença do Sábio.

Então perguntou o Sábio:” você viu as tapeçarias da Pérsia que estão na minha sala de jantar? Viu o jardim que o Mestre dos Jardineiros demorou dez anos para criar? Reparou nos belos pergaminhos de minha biblioteca?”

O rapaz, envergonhado, confessou que não havia visto nada: sua única preocupação foi não derramar as gotas de óleo que o Sábio lhe havia confiado.

“Pois então, volte e conheça as maravilhas do meu mundo”, disse o Sábio. “Você não pode confiar num homem se não conhece sua casa.”

Já mais tranqüilo, o rapaz pegou a colher e voltou a passear pelo palácio, desta vez reparando em todas as obras de arte que pendiam do teto e das paredes.

Viu o jardim do Mestre dos Jardineiros, que combinava com as montanhas no horizonte. Sentiu o perfume de cada flor. Admirou os pergaminhos de textos sagrados, criados por homens com paciência e devoção. Reparou que, embora o Sábio tivesse muitíssimas obras de arte, conseguia distribuí-las com equilíbrio por toda a sua casa, de modo que cada uma delas pudesse receber a atenção do visitante.

De volta à presença do Sábio, relatou cuidadosamente tudo que havia visto.

E o Sábio perguntou:

“Mas onde estão as duas gotas de óleo que lhe confiei?”

Horrorizado, olhando para a colher, o rapaz percebeu que as havia derramado.

“Não se preocupe”, disse o mais Sábio de todos os Sábios. Você veio aqui em busca de um conselho, e isto é tudo que eu tinha para lhe dizer:

“O segredo da felicidade está em olhar todas as maravilhas do mundo, e nunca se esquecer das duas gotas de óleo na colher.”

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