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segunda-feira, 14 de março de 2005

O silêncio dos culpados

O vídeo foi filmado na manhã do dia 26 de abril de 1986, e mostra uma vida normal em uma cidade normal. Um homem sentado tomando café. A mãe passeando com o bebê pela rua. As pessoas atarefadas, indo para o trabalho, uma ou duas pessoas esperando no ponto de ônibus. Um senhor lendo um jornal no banco de uma praça. Mas o vídeo está com problema: aparecem várias riscas horizontais, como se o botão de “racking” precisasse ser mexido, de modo que eu e mais cinco pessoas que estão comigo, pudéssemos ver uma melhor imagem. Penso em pedir que façam isso, mas penso também que alguém deve ter notado, e em breve irão tomar alguma providência.

O vídeo sobre a pequena cidade do interior continua passando, sem absolutamente nenhuma coisa interessante além das cenas da vida comum. É possível que algumas daquelas pessoas saibam que aconteceu um acidente a dois quilômetros dali. É possível também que saibam que ocorreram 30 mortes, o que é um número grande, mas não o suficiente para mudar a rotina dos habitantes.

As cenas agora mostram ônibus escolares estacionando. Ali ficarão por muitos dias, sem que nada aconteça. As imagens estão muito ruins, e me viro para Katya, pedindo que tente ver o que está acontecendo. Ela não responde - perdeu a voz. Viro-me para Oleg, que diz uma só palavra:

- Não é o “tracking”. É a radiação.

Na noite do dia 26 de abril, 1h23 da manhã, o pior desastre criado pela mão do homem aconteceu em Chernobyl, Ucrânia, onde estou agora assistindo esse vídeo. Com a explosão de um reator nuclear, as pessoas da área foram submetidas a uma radiação 90 vezes maior que a da bomba de Hiroshima. Era necessário evacuar imediatamente a região, mas ninguém, absolutamente ninguém disse nada. Afinal de contas, o governo não comete erros. Uma semana depois, apareceu na página 32 do jornal local uma pequena nota de cinco linhas, falando da morte dos operários, e mais nada. Nesse meio-tempo, foi comemorado o Dia do Trabalho em toda a ex-União Soviética, e em Kiev, capital da Ucrânia, as pessoas desfilam sem saber que a morte invisível está no ar.

Eu volto ao meu passado: estou em um bar no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, quando a TV dá a notícia, porque, a esta altura, aparelhos na Suécia, a milhares de quilômetros dali, detectaram a poeira radioativa que caminha em direção àquele país.

Apenas trinta mortes naquele dia e, no entanto, segundo um relatório das Nações Unidas feito em 1995, um total de 9 milhões de pessoas no mundo inteiro foram afetadas diretamente pelo desastre, entre elas três a quatro milhões de crianças. As trinta mortes se transformaram, segundo o especialista John Gofmans, em 475 mil casos de câncer fatais, e um número igual de câncer não-fatais.

O silêncio dos culpados, entretanto, durou muito mais do que se esperava; afinal de contas, ninguém vê a poeira radioativa. Mas finalmente, quando o mundo inteiro já sabia, quando a poeira havia se espalhado por toda a Europa, 400 mil pessoas tiveram que ser evacuadas. Um total de 2 mil cidades e vilarejos foram simplesmente riscados do mapa. Segundo o Ministério da Saúde da Bielorússia, o índice de câncer na tiróide no país deve aumentar consideravelmente entre 2005 e 2010, como conseqüência da radioatividade que ainda continua a fazer efeito.

Comenta o professor dr. Vladimir Chernousenko:

- Além dessas nove milhões de pessoas diretamente afetadas pela radiação, outras 65 milhões foram indiretamente afetadas através do consumo de alimentos contaminados, em muitos países do mundo. E seja na Ucrânia, na Rússia, nos Estados Unidos ou na Alemanha, é absolutamente impossível ter completo controle de uma reação nuclear. Quase aconteceu na América (ele se refere a Three Mile Island, onde outro reator explodiu parcialmente), e de um momento para o outro, sem que ninguém espere, pode tornar a acontecer.

O vídeo, filmado pela KGB (a polícia secreta da União Soviética) termina com alguns agentes vestindo roupas especiais. Katya, Oleg, Yuri e Lena estão chocados. Nos levantamos e, por causa do silêncio dos culpados, os inocentes também ficam em silêncio - porque não há nada, absolutamente nada a dizer.

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