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terça-feira, 18 de janeiro de 2005

De livros e bibliotecas

Na semana passada, comentei sobre meus livros sublinhados. Na verdade, não tenho muitos livros: há alguns anos atrás, fiz certas escolhas na vida, guiado pela idéia de procurar ter um máximo de qualidade, com o mínimo de coisas. Não quer dizer que tenha optado por uma vida monástica; muito pelo contrário, quando não somos obrigados a possuir uma infinidade de objetos, temos uma liberdade imensa. Alguns de meus amigos (e amigas) reclamam que, por causa do excesso de roupas, perdem horas de suas vidas tentando escolher o que vestir. Como resumi meu guarda-roupa a um "preto básico", não preciso enfrentar este problema.

Mas não estou aqui para falar de moda, e sim de livros. Para voltar ao essencial, decidi manter apenas 400 livros em minha biblioteca alguns por razões sentimentais, outros porque estou sempre relendo. Tal decisão foi tomada por vários motivos, e um deles é a tristeza de ver como bibliotecas acumuladas cuidadosamente durante a vida, são depois vendidas a peso, sem qualquer respeito. Outra razão: por que manter todos estes volumes em casa? Para mostrar aos amigos que sou culto? Para enfeitar a parede? Os livros que comprei serão infinitamente mais úteis em uma biblioteca pública, do que em minha casa.

Antigamente, poderia dizer: preciso deles porque vou consultá-los. Mas hoje em dia, quando há necessidade de qualquer informação, conecto o computador, digito uma palavra-chave, e diante de mim aparece tudo que preciso. Ali está a internet, a maior biblioteca do planeta.

Claro que continuo comprando livros, não existe meio eletrônico que consiga substitui-lo. Mas assim que termino, deixo que ele viaje, dou para alguém, ou entrego em uma biblioteca pública. Minha intenção não é salvar florestas ou ser generoso: apenas creio que um livro tem um percurso próprio, e não pode ser condenado a ficar imóvel em uma estante.

Sendo escritor, e vivendo de direitos autorais, posso estar advogando contra mim mesmo, afinal, quanto mais livros comprassem, mais dinheiro ganharia. Entretanto, seria injusto com o leitor, principalmente em países onde grande parte dos programas governamentais de compras para bibliotecas é feito sem usar o critério básico de uma escolha séria: o prazer da leitura com a qualidade do texto.

Deixemos, pois, nossos livros viajarem, serem tocados por outras mãos, e desfrutados por olhos alheios. No momento em que escrevo esta coluna, lembro-me vagamente de um poema de Jorge Luis Borges que fala dos livros que jamais tornarão a ser abertos.

Onde estou agora? Em uma pequena cidade dos Pirineus, na França, sentado em um café, aproveitando o ar-condicionado já que a temperatura lá fora está insuportável. Por acaso, tenho a coleção completa de Borges em minha casa, a alguns quilômetros do local onde escrevo é um escritor que estou constantemente relendo. Mas por que não fazer o teste?

Atravesso a rua. Caminho cinco minutos até um outro café, equipado com computadores (um tipo de estabelecimento conhecido pelo simpático e contraditório nome de cyber-café). Cumprimento o dono, peço uma água mineral geladíssima, abro a página de um mecanismo de busca, e digito algumas palavras de um único verso que me lembro, junto com o nome do autor. Menos de dois minutos depois estou com a poesia completa diante de mim:

Há uma linha de Verlaine

que nunca mais me lembrarei.

Há um espelho que já me

viu pela última vez.

Há uma porta fechada

até o final dos tempos.

Entre os livros de minha biblioteca

Há algum que já não tornarei a abrir.

Na verdade, muitos dos livros que doei, tenho a impressão que jamais tornarei a abri-los porque sempre é publicado algo novo, interessante, e eu adoro ler. Acho ótimo que as pessoas tenham bibliotecas; geralmente o primeiro contato de crianças com livros se dá através da curiosidade por aqueles volumes encadernados, com figuras e letras. Mas também acho ótimo quando, em uma tarde de autógrafos, encontro leitores com exemplares usadíssimos, que foram emprestados dezenas de vezes: isso significa que aquele livro viajou, como a mente do seu autor viajava, enquanto o escrevia.

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