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terça-feira, 8 de julho de 2003

21 de junho 2003, Jordânia, Mar Morto

No dia 21 de junho estive na Jordânia, mais precisamente no Mar Morto, para um encontro do WEF, convidado pela rainha para escrever um texto que seria parte da cerimônia de abertura. Logo que o evento terminou, participei de um jantar onde me vi em uma situação extraordinária.
Na mesa exatamente ao lado estavam o rei e a rainha da Jordânia, o secretário de Estado Collin Powell, o representante da Liga Árabe, o ministro de Relações Exteriores de Israel, o presidente da Republica Alemã, o presidente do Afganistão Hamid Karzai, e outros importantes nomes envolvidos nos processos de guerra e paz que estamos presenciando. Embora a temperatura fosse próxima de 40 ºC, uma brisa suave soprava no deserto, um pianista tocava sonatas, o céu estava claro, tochas espalhadas pelo jardim iluminavam o lugar. Do outro lado do Mar Morto podíamos ver Israel, e o clarão das luzes de Jerusalém no horizonte. Ou seja, tudo parecia em harmonia e paz e de repente me dei conta que aquele momento, longe de ser uma aberração da realidade, era na verdade um sonho de todos nós. Embora meu pessimismo tenha aumentado muito no decorrer destes meses, se as pessoas ainda conseguem conversar, nada está perdido. Mais tarde a rainha Rannia iria comentar que o lugar do encontro tinha sido escolhido por seu caráter simbólico: o Mar Morto é o lugar mais profundo da superfície da Terra (no caso, 401 metros abaixo do nível do mar). Para ir mais fundo ainda, temos que mergulhar, mas neste caso específico, a salinidade da água força o corpo a voltar para a superfície. E é assim com o longo e doloroso processo de paz no Oriente Médio: não se pode ir mais baixo do que o estado atual. Se eu tivesse ligado a TV naquele dia, iria saber da morte de um colono judeu e um jovem palestino. Mas eu estava ali, naquele jantar, com a estranha sensação de que a calma daquela noite podia se estender por toda a região, as pessoas voltariam a conversar como conversavam naquele momento, a utopia é possível, os homens não podem descer mais fundo.
Se algum dia tiverem oportunidade de ir ao Oriente Médio, não deixem de visitar a Jordânia (um país maravilhoso, acolhedor), ir ao Mar Morto, olhar Israel na outra margem: entenderão que a paz é necessária e possível. A seguir, parte do texto que escrevi e li durante o evento, acompanhado pelo improviso do genial violinista judeu Ivry Gitlis :
Paz não quer dizer o contrário de Guerra.
Podemos ter paz no coração mesmo no meio das batalhas mais ferozes, porque estamos lutando por nossos sonhos. Quando todos nossos amigos já perderam a esperança, a paz do Bom Combate nos ajuda a seguir adiante.
Uma mãe que pode alimentar seu filho tem paz em seus olhos, embora suas mãos estejam tremendo porque a diplomacia falhou, as bombas caem, os soldados morrem.
Um arqueiro que abre seu arco tem paz em sua mente, mesmo que todos os seus músculos estejam tensos por causa do esforço físico.
Portanto, para os guerreiros da luz, paz não é o oposto de guerra porque eles são capazes de:
A] distinguir o que é passageiro e o que é duradouro.Podem lutar por seus sonhos e por sua sobrevivência, mas respeitam os laços que foram desenvolvidos através do tempo, da cultura, e da religião.
B] saber que seus adversários não são necessariamente seus inimigos.
C] ter consciência de que suas ações afetarão cinco gerações futuras, e serão seus filhos e netos que se beneficiarão (ou sofrerão ) as conseqüências.
D] lembrar-se do que diz o I Ching: a perseverança é favovável. Mas sem confundir perseverança com insistência - as batalhas que duram mais que o necessário, terminam destruindo o entusiasmo necessário para a reconstrução.
Para o guerreiro da luz, não existem abstrações; cada oportunidade de transformar a si mesmo, é uma oportunidade de transformar o mundo.
Para o guerreiro da luz, tampouco existe pessimismo. Ele rema contra a maré se for necessário; pois, quando estiver velho e cansado, poderá dizer aos seus netos que veio a este mundo para entender melhor seu vizinho, e não para condenar o seu irmão.

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