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terça-feira, 10 de junho de 2003

Das armadilhas da busca

Ao mesmo tempo que as pessoas passam a prestar mais atenção às coisas do espírito, um outro fenômeno ocorre: a intolerância com a busca espiritual dos outros. Todos os dias recebo revistas, mensagens eletrônicas, cartas, panfletos que tentando provar que tal caminho é melhor que o outro, e contendo uma série de regras para atingir "a iluminação". Em virtude do volume crescente deste tipo de correspondência, decidi escrever um pouco sobre aquilo que considero perigoso nesta busca.
Mito 1: a mente pode curar tudo. Isso não é verdade, e prefiro ilustrar este mito com uma história. Há alguns anos, uma amiga minha - profundamente envolvida com a busca espiritual - começou a ter febre, passar muito mal, e durante toda a noite procurou mentalizar o seu corpo, usando todas as técnicas que conhecia, de modo a curar-se apenas com o poder do pensamento. No dia seguinte, seus filhos, preocupados, pediram que fosse a um médico - mas ela se recusava, alegando que estava "purificando" seu espírito. Só quando a situação ficou insustentável foi que aceitou ir a um hospital, e ali teve que ser operada imediatamente - diagnosticaram apendicite. Portanto, muito cuidado: melhor as vezes pedir que Deus guie as mãos de um médico, que tentar curar-se sozinho.
Mito 2: a carne vermelha afasta a luz divina. É evidente que, se você pertence a determinada religião, terá que respeitar as regras estabelecidas - judeus e muçulmanos, por exemplo, não comem carne de porco, e neste caso trata-se de uma prática que faz parte da fé. Entretanto, o mundo está sendo inundado por uma onda de "purificação" através da comida: os vegetarianos radicais olham as pessoas que comem carne como se fossem responsáveis pelo assassinato de animais. Ora, as plantas também não são seres vivos? A natureza é um constante ciclo de vida e morte, e algum dia seremos nós quem iremos alimentar a terra - portanto, se você não pertence a uma religião que proíba determinado alimento, coma aquilo que seu organismo pedir. Quero lembrar aqui a história do mago russo Gudjeff: quando jovem, foi visitar um grande mestre, e para impressiona-lo comia apenas vegetais.
Certa noite, o mestre quis saber por que tinha uma dieta tão rígida, e Gurdjeff comentou: "para manter limpo o meu corpo". O mestre riu, aconselhando-o imediatamente a parar com essa prática: se continuasse assim, ia terminar como uma flor na estufa - muito pura, mas incapaz de resistir aos desafios das viagens e da vida. Como dizia Jesus: "o mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem."
Mito 3: Deus é sacrifício. Muita gente busca o caminho do sacrifício e da auto-imolação, afirmando que devemos sofrer neste mundo, para ter felicidade no próximo. Ora, se este mundo é uma benção de Deus, por que não saber aproveitar ao máximo as alegrias que a vida dá? Estamos muito acostumados com a imagem de Cristo pregado na cruz, mas nos esquecemos que sua paixão durou apenas três dias: o resto do tempo passou viajando, encontrando as pessoas, comendo, bebendo, levando sua mensagem de tolerância. E tanto foi assim que seu primeiro milagre foi "politicamente incorreto": como faltou bebida nas bodas de Caná, ele transformou água em vinho. Fez isso, no meu entender, para mostrar a todos nós que não existe nenhum mal em ser feliz, alegrar-se, participar de uma festa - porque Deus está muito mais presente quando estamos junto dos outros. Maomé dizia que "se estamos infelizes, trazemos também infelicidade aos nossos amigos." Buda, depois de um longo período de provação e renúncia, estava tão fraco que quase se afogou; quando foi salvo por um pastor, entendeu que o isolamento e o sacrifício nos afastam do milagre da vida.
Mito 4: existe um único caminho até Deus. Este é o mais perigoso de todos os mitos: a partir daí começam as explicações do Grande Mistério, as lutas religiosas, o julgamento do nosso próximo. Podemos escolher uma religião (eu, por exemplo, sou católico), mas devemos entender que se o nosso irmão escolheu uma religião diferente, irá chegar no mesmo ponto de luz que nós buscamos com nossas práticas espirituais. Finalmente, vale a pena lembrar que não é possível transferir de maneira nenhuma para o padre, o rabino, o iman, as responsabilidades de nossas decisões. Somos nós que construímos, através de cada um de nossos atos, a estrada até o Paraíso.

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