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terça-feira, 17 de setembro de 2002

Encontro na Galeria Dentsu

Três senhores, muito bem vestidos, apareceram no meu hotel em Tóquio.

- Ontem o senhor deu uma conferência na Galeria Dentsu - disse um deles. - Eu entrei por acaso. Neste momento, o senhor dizia que nenhum encontro acontece por casualidade. Talvez fosse o momento de nos apresentarmos.

Não perguntei como haviam descoberto o hotel em que estava hospedado, não perguntei nada; se pessoas são capazes de superar essas dificuldades, merecem todo o respeito. Um dos três homens entregou-me alguns livros de caligrafia japonesa. Minha intérprete ficou excitada: o tal senhor era Kazuhito Aida, filho de um grande poeta japonês, de quem eu nunca havia escutado falar.

E foi justamente o mistério da sincronicidade dos encontros que me permitiu conhecer, ler, e dividir com os leitores desta coluna um pouco do magnífico trabalho de Mitsuo Aida (1924-1998), calígrafo e poeta, cujos textos nos trazem de volta a importância da inocência:

*****

Porque viveu intensamente sua vida

a grama seca ainda chama a atenção de quem passa.

As flores apenas florescem,

e fazem isso da melhor maneira que podem.

O lírio branco no vale, que ninguém vê,

não precisa explicar-se para ninguém;

vive apenas para a beleza.

Os homens, porém, não podem conviver com o "apenas".

*****

Se os tomates quiserem ser melões

eles se transformarão em uma farsa.

Muito me surpreende

que tanta gente esteja ocupada

em querer ser quem não é;

qual a graça de transformar-se em uma farsa?

****

Você não precisa fingir que é forte,

não deve sempre provar que tudo está correndo bem,

não pode se preocupar com o que os outros estão pensando;

chore se tiver necessidade,

é bom chorar até não sobrar nenhuma lágrima

(pois só então poderá voltar a sorrir)

****

Eu às vezes assisto pela TV as inaugurações de túneis e pontes. Eis o que normalmente acontece: muitas celebridades e políticos locais se colocam em fila, e no centro está o ministro ou o governador do lugar. Então, uma fita é cortada, e quando os diretores da obra voltam aos seus escritórios, ali encontram várias cartas de reconhecimento e admiração.

As pessoas que suaram e trabalharam por aquilo, que pegaram na picareta e na pá, que se exauriram de trabalho no verão, ou ficaram ao relento no inverno para terminar a obra, jamais são vistas; parece que a melhor parte fica com aqueles que não derramaram o suor de seus rostos.

Eu quero ser sempre uma pessoa capaz de ver as faces que não são vistas - daqueles que não procuram fama nem glória, que silenciosamente cumprem o papel que lhes é destinado pela vida.

Eu quero ser capaz disso, porque as coisas mais importantes da existência, as que nos constroem, jamais mostram suas faces.

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