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terça-feira, 16 de julho de 2002

O processo criativo

Todo processo criativo, seja ele na literatura, na engenharia, na informática - e até mesmo no amor - respeita sempre um mesmo padrão: o ciclo da natureza. A seguir, listo as etapas deste processo:

a) aragem do campo: no momento em que o solo é revirada, o oxigênio penetra onde antes não conseguia. O campo ganha um novo rosto, a terra que estava em cima agora está embaixo, e o que estava embaixo transformou-se em superfície. Este processo de revolução interior é muito importante – porque, da mesma maneira que o novo rosto daquele campo irá ver a luz do sol pela primeira vez, e deslumbrar-se com ela, uma reavaliação dos nossos valores permitirá ver a vida com inocência, e sem ingenuidade. Assim, estaremos preparados para o milagre da inspiração. Um bom criador tem que saber estar sempre revirando seus valores, e jamais ficar contente com aquilo que julga entender.

b) a semeadura: toda obra é fruto do contato com a vida. O homem criador não pode trancar-se em uma torre de marfim; precisa estar em contato com o próximo, e compartilhar sua condição humana. Nunca vai saber, de antemão, quais as coisas que serão importantes no futuro, de modo que, quanto mais intensa sua vida, mais possibilidades tem de encontrar uma linguagem original. Le Corbusier dizia que "enquanto o homem quis voar imitando os pássaros, nunca conseguiu." O mesmo se passa com o artista: embora ele seja um tradutor de emoções, a linguagem que ele está traduzindo não é inteiramente conhecida por ele, e se tentar imitar ou controlar a inspiração, jamais chegará onde deseja. Ele precisa permitir que a vida semeie o campo fértil do seu inconsciente.

c) a maturação: existe um tempo onde a obra se escreve sozinha, com liberdade, no fundo da alma do autor - antes que este se atreva a manifestá-la. No caso da literatura, por exemplo, o livro está influenciando o escritor, e vice-versa. É sobre este momento que o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade se refere, ao dizer que jamais devemos tentar recolher os versos que se perdem, pois eles não mereciam ver a luz do dia. Conheço gente que, durante a maturação, fica compulsivamente tomando notas de tudo que passa pela cabeça, sem respeitar aquilo que está sendo escrito no inconsciente. O resultado é que as notas, frutos da memória, terminam atrapalhando os frutos da inspiração. O criador precisa respeitar o tempo de gestação, embora saiba que - assim como o agricultor - ele só tem parcial controle do seu campo; está sujeito a seca, ou a inundações. Mas, se souber esperar, a planta mais forte, que resistiu às intempéries, virá à luz com toda sua força.

d) a colheita: é o momento que o homem vai manifestar em um plano consciente aquilo que ele semeou e deixou maturar. Se colher antes, a fruta está verde, se colher depois, a fruta está podre. Todo artista sabe reconhecer a chegada deste momento; embora certas perguntas ainda não tenham maturado o suficiente, certas idéias ainda não estejam claras e cristalinas, elas irão se reorganizar a medida que a obra está sendo feita. Sem medo, e com disciplina, ele entende que é preciso trabalhar de sol a sol, até que seu trabalho esteja completo.

E o que fazer com os resultados da colheita? De novo, olhamos a Mãe Natureza: ela compartilha tudo com todos. Um artista que quer guardar sua obra para si mesmo, não está sendo justo com o que recebeu do momento presente, nem com a herança e os ensinamentos de seus antepassados. Se deixarmos os grãos estocados no celeiro, eles terminarão apodrecendo, embora tenham sido colhidos no momento certo. Quando a colheita termina, chega o momento em que é preciso dividir, sem medo ou vergonha, a sua própria alma.

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